quarta-feira, 19 de maio de 2010

1ª edição, maio de 2010

[joão vicente, 1ª]

os tão falados armários

Armários? Sim, armários! E até com portas vermelhas para combinar com a cor do símbolo do colégio!
Antes não tinha nenhum, agora até no patamar da escada encontram-se armários!
É isso aí, agora vai ser menos peso nas costas, um ombro mais relaxado e menos trabalho pras massagistas!
O que era um problema se desproblemou! Mas não foi fácil desproblematizar isso não! Depois de muito pedirmos, dos pais pedirem, de nós questionarmos, propormos soluções bem viáveis e outras completamente inviáveis, (propusemos até usar caixas de papelão como armários), falarmos pessoalmente com o diretor e à ele entregarmos propostas da onde poderiam colocar os tão esperados armários, e pedirmos uma resposta de volta. Não havendo resposta nenhuma resolvemos dar um toque final, colocamos um poema com cores chamativas no mural do grêmio com frases provocativas, e é claro, espalhamos balanças com o nosso material do dia para mostrarmos que não era apenas uma questão de conforto pra costas, mas também de saúde.
Agora, estão aí, novinhos em folha e pronto para serem usados!
Não queríamos os armários? Pois então, fomos atrás deles, e não é que agora nós os temos? Mesmo tendo que escutar que a nossa manifestação não mudou nada na decisão da diretoria, foi após esta que eles vieram até nós para nos darem a esperada resposta de que os armários já estavam encomendados.
Nós estudamos em uma escola que é famosa por dizerem que os alunos tem a sua opinião e que podem a expor, e foi isso que fizemos. Acho que é assim que vamos aprender a lidar com o mundo lá fora, porque nem sempre terão os armários embutidos e prontos como havia no equipe antigo, às vezes teremos que buscá-los de uma outra forma, portanto é isso que tentamos fazer, e mesmo que insistem que a nossa persistência não fez diferença na hora da decisão final, imagine só se nunca tivemos nem tocado no assunto de armários quanto tempo iria demorar... talvez uns seis meses, não?

[angel homem de mello, 2ª]
[heron luiz barros, 1ª]

uma marcha qualquer...

Antes de qualquer palavra, esta é uma resposta ao texto “Reforma na política de drogas é necessário?” de Luca Magri, texto este presente nesta mesma edição do jornal. Quero esclarecer que o jornal é o espaço para a discussão e que esta por sua vez só pode existir se houverem iniciativas como estas. Mas vamos às vias de fato:
1º de Maio de 2010, Rio de Janeiro: Passeata a favor de direitos trabalhistas? Pela Reforma Agrária? Por uma educação pública de qualidade? Não! No dia do trabalhador o que de fato aconteceu foi a Marcha da Maconha.
Uma organização mundial, com entidades de todos os tipos e indivíduos de todas as tribos, digo, quase todas. Promove em mais de trezentas cidades, uma marcha pela legalização da maconha. A de São Paulo ocorrerá no próximo dia 23, contando com a presença em massa da juventude paulistana.
Mas o que isso de fato representa? Antes de qualquer juízo sobre a marcha tenho de deixar claro que sou a favor da legalização do uso da maconha, pois a vejo não como um problema moral, mas sim de saúde pública e nesse campo acredito que as drogas têm suas funções sociais que são válidas, mas que devem ser pensadas com cabeça fria e de preferência, sóbria.
O que de fato me incomoda é essa posição perante a droga: que está muito bem ilustrada no texto “Reforma na política de drogas é necessário?” . Primeiramente acreditar que o que de fato precisamos no Brasil é uma reforma na política de drogas é não entender o que se pensa sobre drogas e principalmente a quem se destina essa discussão. Necessitamos de uma mudança na estrutura da concepção que o Estado brasileiro tem sobre drogas psicoativas e não apenas uma reforma, pois esta, se feita legitima a estrutura arcaica da nossa sociedade quanto ao assunto (diferentemente de uma mudança estrutural)
Este movimento e seus defensores não entendem que estas ambições são meramente representações de filhos da elite com suas respectivas angustias de classe dominante: “fumo ou num fumo?”.
E mais, não compreendem que para tornar “ assim, o mundo mais justo e democrático” como disse Luca, é necessário, antes de legalizar a droga, democratizar a discussão sobre maconha. Pois enquanto nós, filhos da burguesia, nos preocupamos com a erva (liberada ou não), na periferia os jovens tem de se preocupar se serão assassinados por grupos de policiais, como estamos acompanhando diariamente.
Cria-se a ilusão que a questão da maconha ultrapassa as fronteiras sociais, quando na verdade, apesar do uso da maconha ser grande entre os jovens de diversas camadas socioeconômicas, sua utilização não representa, diretamente, que os jovens da periferia e de baixa renda estejam integrados nessa discussão. E se pretende ser um movimento justo e democrático, necessita dialogar em todas as esferas sociais, caso contrário continuará sendo um “chilique de pequeno burguês”.
A droga necessita ser debatida sim, como o movimento propõe, mas não sob o ótica escolhida. A droga, a meu ver, deve ser debatida pela sua presença na sociedade (e acreditem, quando digo sociedade vai além da Vila Madalena). Como algo recorrente em todos os setores sociais, deve ser pensado por todos os mesmos.
Não é menosprezar a questão da maconha, mas se chegamos ao ponto de nossa juventude se preocupar com a legalização da maconha em pleno 1º de Maio, com tantas causas mais justas e dignas a serem abraçadas, é por que de fato, nos encontramos totalmente ilhados da nossa estrutura e da compreensão do poder de atuação política que temos.
Questões como legalização do aborto, da educação na rede publica: por que nós não vamos pras ruas por estas causas? Estas sim são causas democráticas e justas, mas não, cada um defende seu peixe com a arma que tem, não é mesmo?
Por fim, um movimento deste caráter é, na minha humilde opinião de filho do mesmo nicho social, um movimento alienado à sua própria causa, pois não entende em que problemas estruturais da sociedade a questão das drogas estão enraizadas.
Embora a legalização da maconha seja uma reivindicação justa, ela se configurou nesta Marcha da Maconha como um movimento de elite, tanto quanto a ”Marcha da Família com Deus pela Liberdade” que foi um dos estopins conservadores do golpe de 64.
É uma pena, e uma realidade.

[vitor quarenta, 3ª]

reforma na política de drogas é necessário?

Cada vez mais o assunto sobre a liberação de substâncias psicoativas vem sendo pauta em debates entre ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso, Ernesto Zedillo, César Gaviria e as comissões latino-americanas sobre drogas e democracia. Dados vêm apontando que o número de adolescentes entre 15 e 16 anos que já experimentaram alguma droga ilegal está subindo, e na Inglaterra esse número representa quase a metade dos cidadãos entre essas idades.
A guerra ao tráfico vem mostrando ineficácia. Com a proibição das drogas, como diz, Jack Cole, ex-detetive, jovens usuários financiam o tráfico quando compram maconha, cocaína ou ecstasy, e fazê-los entenderem o quão complexo é este problema já é inútil, pois mesmo tendo ciência, não param de usar as substâncias. O que deve ser feito, continua John Grieve, ex-comandante da Scotland Yard, é uma reforma na política de droga, já que esta mostra incongruências em sua construção, e o assunto já passou de ser um tabu.
No último encontro dos grandes nomes que hoje defendem a liberação de substâncias psicoativas, Grieve apresentou aos participantes sua lista de “10 Razões para Legalizar as Drogas”, e nela continha dados apontando que o menor número de usuários adolescentes na Europa provém da Holanda, único país oficialmente legalizado; e que hoje 1,5 milhão de pessoas usam ecstasy aos fins de semana. O que mostra que a proibição não funciona.
No Brasil o assunto ainda é tratado de forma instável pelo Ministério da Justiça. Ora alegam que a proibição é o que sustenta o tráfico, ora proíbem manifestações públicas, um direito do cidadão segundo a Constituição, como a Marcha da Maconha, uma organização que luta por reformas na política de drogas através de discussões em torno da polêmica.
A Argentina, em meados do ano passado, descriminalizou o uso de maconha. Claro, descriminalização não é a mesma coisa que legalização, pois o uso e porte da substância apenas deixam de ser crime, em alguns casos, frente ao Estado. Por exemplo, é legal portar a droga, porém consumi-la em vias públicas é ilegal. Independente disto, a Argentina foi o primeiro país sul-americano a dar este passo tão grande frente à política de drogas mundial. Vamos ver se essa ação encoraja outros países a seguir o exemplo, tornando, assim, o mundo mais justo e democrático.

[luca magri, 3ª]
[deborah salles, 3ª]

vidas de areia

O sertão vai entrando pelo nariz e pelos olhos de Volta Seca. Entra seco. O trem já cavou muito pra dentro da Bahia. A brisa do mar de Salvador para aquela direção parece que não quer ir. Para aquela direção parece que ninguém quer ir. Ninguém vai ao sertão. As pessoas já nascem nele. Só Volta Seca que quer ir encontrar lá a vingança da miséria junto a Lampião. O trem vai devagar e o som dos trilhos naquele silêncio incomoda. Em Salvador, Volta Seca tinha a impressão de que o mundo fazia mais barulho. Vai vendo o sertão passar. A caatinga tenta gritar, mas não consegue. Volta Seca foi para gritar pela caatinga. Era hora de gritar. Ele sai do trem num pulo. As planícies avermelhadas incomodam seus olhos. Vaqueiros, crianças sem nome, mães e mães e cachorros e meninos e a água, não há água. Se mete numa cidade, que não é cidade, é sertão: cidade é Salvador, sertão é sertão. Volta Seca sabe que lá também os homens ricos eram ruins. Que lá iria realizar sua missão de vida, matar soldados de polícia e libertar o agreste sendo então o mais novo Pedro Bala, o mais novo Lampião. Não tardou a se meter em encrenca. Foi roubar numa feira: comida mesmo pra viver. Mas daí o pegaram, e a mão do soldado sertanejo doía mais do que a do soldado de Salvador. Na cadeia, bateram mais nele quando falou que era afilhado de Lampião. Então ele repetiu que era sim e bateram mais. O jogaram numa cela. Seca. Lotada de homem que parecia bicho, seminus, deviam nem ter feito nada, pensou. Pareciam já ter engolido aquele injustiça. Achegou-se em um que soltava grunhidos de animais. Todo ele era seco, sua pele dura, muito claro, mas a poeira o deixava marrom. “Como se chama?”, perguntou Volta Seca.
“Fabiano”, disse o homem com dificuldade. Fabiano. Esse cabra devia ser vaqueiro, pai de alguma daquelas famílias que viu se arrastando pela estrada. “Por que te prenderam?”, Volta Seca quis saber. “Foi o soldado amarelo que me prendeu”. Volta Seca sabia de quem o homem estava falando. Percebeu que o tal Fabiano parecia inconformado. “Ele me prendeu também. Quando sair daqui vou matá-lo. Matar todos eles.” O homem da pele dura estranhou a fala raivosa do moleque. Se via conformado, menor e incapaz de dizer aquelas coisas. No fundo, tinha o mesmo ódio. “Vou matar todos eles”, continuou empolgado, “os soldados de polícia, os governantes!”. Fabiano não entendeu. Para ele o governo não era quem prendia. O governo era sim longe, e ele era pequeno, era bicho, bruto. Tentou arriscar algumas palavras. “Se eu conseguisse falar bonito, ia dizer tudo pro soldado amarelo”. O homem falava meio encabulado, com dificuldade. Como se tivesse pedra na boca. Volta Seca estava acostumado a falar com os Capitães da Areia, falar e gritar e reclamar e agir muito sempre. Mas entendia os silêncios pausados de Fabiano. Ele não tinha água. Pelo menos em Salvador havia o mar, as pessoas. Volta Seca pensou que entendia tanto os sertanejos porque era um deles também. Viera para libertá-los e extravasá-los de todo aquele ódio e pobreza.
Não demorou a ser liberado. Como na Bahia, os soldados só queriam ralhar com ele, se divertir batendo nos pobres. Saiu ainda mais revoltado do que quando entrou. Pensava forte em Fabiano, imaginava sua família ali na beira daquele nada, carregando criancinhas fracas que lhe faziam lembrar dos companheiros do trapiche, meninas mulheres como Dora que viviam como animais para aguentar aquela seca. Eram vidas de areia, mas não da areia da praia que forrava o trapiche, areia do sertão que machuca os olhos, machuca o corpo e é fraca, logo desfaz.
Ia andando mais devagar do que o trem. Queria e pensava só em encontrar Lampião. Com ele iria matar todos aqueles soldados que em algum lugar, fosse em Salvador ou no sertão, tivessem prejudicado algum pobre e piorado sua pobreza. Pois não mais o fariam com ele e Lampião juntos – e era nisso que Volta Seca acreditava, e por isso ia, andava.

[beatriz demasi, 1ª]

trechos de texto escolar

... Seria o tempo algo natural? Será que o tempo existe e sempre existiu, desde o começo de tudo? As mudanças são sempre necessárias quando existem corpos e espaço? Para criar tudo não foi necessário o tempo, como ele mesmo surgiu?
... É tão difícil explicar o tempo exatamente porque estamos dentro dele. Nós vivemos o tempo e tudo o que existe no mundo o tem como companheiro eterno, assim é quase impossível observá-lo para tirar conclusões, pois na verdade é o tempo que nos observa e nos tem. Nós não possuímos o tempo, apenas temos capacidade da noção de sua existência... Ou será que não? Temos tanta certeza da existência do tempo porque de fato as mudanças acontecem, isso é comprovado por todas as nossas formas de conhecimento, científico, espiritual, de vida. A grande questão é que dar um nome ao tempo o torna algo real, mas, lembrando da frase de Santo Agostinho, tornando-o algo pensável, é impossível explicá-lo. É como se o tempo fizesse parte de nós, porque o compreendemos se apenas o deixamos correr, mas se tentamos defini-lo como algo externo ele parece irreal (em relação ao tempo: “se não me perguntam, eu sei. Se me perguntam, ignoro”). Apesar disso, ter noção de tempo é algo necessário na vida dos homens, pois só assim ele consegue ter mais segurança de seus atos e objetivos
... É ainda mais difícil buscar respostas para o tempo do que para nosso propósito no planeta pois as referências que temos são na maioria culturais. Por exemplo, a forma que se dá ao tempo. Normalmente a cultura ocidental imagina o tempo linear, onde as coisas se desenvolvem em fases, sempre seguindo em frente e em progresso, para ruim ou para bom. Já nas culturas orientais o tempo geralmente é visto como um ciclo onde as coisas sempre se repetem, não da mesma forma, mas que o tempo dá voltas em si mesmo, e tudo que passará alguma vez já passou, sendo esses fatos ou formas de energia. Esses pensamentos influenciam diretamente no modo de se ver a vida também. Podemos ver a vida como uma estrada longa e sem caminho certo, na qual nós mesmos o criamos, ou podemos vê-la como um eterno recomeço, com ciclos. Enfim, é possível dizer que o tempo influencia em muitas e variadas coisas na vida das pessoas.
Podemos dizer que o homem cria seu próprio tempo. Por conseguir trazer a idéia de tempo para sua mente, o controle que possui sobre ele é interno, mas assim pode pelo menos controlar a si mesmo no tempo. Quando consegue medi-lo e através da história separá-lo e classificá-lo ele passa a utilizá-lo da mesma forma que utiliza a natureza: seguindo suas próprias regras e através de seus meios se situando para conseguir o que quer. Isso o iguala a algo natural. Mais do que isso, a única coisa que temos certeza de que é a natural é a própria natureza, e ela mesma está intrinsecamente ligada com o tempo. Está certo que o homem pode perceber e ver o tempo, é sua capacidade de estar no presente e sentir as mudanças conscientemente. Mas ele mesmo assim está dentro de sua roda, por isso não é possível prever se há algo maior do que nosso intelecto pode alcançar. O tempo é anterior ao homem, e digo que sim, é algo natural. Porém não esse tempo que conhecemos, marcamos e percebemos, mas um tempo que não possui nome, espaço ou tempo.

[josefina schiller, 3ª]