sábado, 28 de agosto de 2010

3ª edição, agosto de 2010


[joão vicente, 1ª]

frio

Fazia frio naquela manhã de outono. De fato, não era mais tão cedo, mas o frio matutino persistia corroendo meus ossos e machucando meu ser. Mesmo assim, corroído de frio, saí às ruas em busca do que fazer, nenhum objetivo traçado, exceto o pensamento nublado de comprar meu almoço e tentar encontrar algum rosto conhecido.
Andando em uma rua vazia, percebi que as manhãs ensolaradas eram mais charmosas no outono, mesmo com o maldito frio que queimava minhas mãos nuas. Foi então que vi um grupo de gente amontoada, aparentemente observando alguma coisa. Curioso, me aproximei para ver o que era, e acabei me integrando ao bolo de pessoas sedentas de curiosidade. No centro da roda, havia um velho mendigo deitado no chão, encolhido e enrugado. Ele segurava um livro velho e antigo, e um trapo em frangalhos que um dia fora uma coberta. Sem dúvida, entre as rugas e fuligem, se via um rosto pálido e frio, e seus olhos fechados lhe davam a impressão de que seu sono há anos não era tão decente. Uma mulher do grupo disse, corajosa:
– Ele morreu de frio, eu acho.
De fato, o mendigo que parecia dormir tranquilamente entre seu sofrimento estava morto. Morrera de frio, afinal sua coberta em farrapos e sua pouca roupa não pareciam ser suficientes para combater o frio terrível que fazia nas noites escuras daquele outono, que nunca fora tão gélido. Seu corpo encolhido mostrava o sofrimento do velho, e sua magreza só deixava claro o quanto o velho fora castigado pelo mundo. Talvez a pena que todos nós sentíamos fosse muito maior que nosso pesar, ninguém sofreria com a morte do indigente, nem ele mesmo. Restava saber o que se faria com o corpo velho mendigo, ou melhor dizendo, ficamos nos perguntando silenciosamente quem chamávamos para recolher o corpo. Um jovem disse, displicentemente:
– Melhor chamar a polícia ou o IML, antes que comece a feder.
Mesmo grosseiro, não havia quem discordasse do jovem, muito menos eu. Alguém em meio ao grupo ligou para a polícia, e se encarregou caridosamente de aguardar junto ao defunto até eles chegarem. Começamos a nos dispersar, seguindo nossos caminhos. A manhã já não era mais tão charmosa. Estou certo que de a única coisa que cada um de nós queria era continuar vivendo sua vida, e a memória que sobraria do velho mendigo morto pelo frio em nós apenas remeteria ao fato de termos um frio assassino no outono paulistano.
Antes de seguir vagando, voltei para dar uma ultima olhada no mendigo, imaginando por quanto tempo ainda me lembraria de seu rosto. Foi então que percebi realmente o livro em seus braços. Era uma edição antiga de um livro de contos de fadas, que se mantinha junto graças a uma fita adesiva também muito antiga. Ora, um livro infantil muito antigo, talvez até mais antigo que seu dono. Um reduto de fantasia e sonho, nos braços de um indigente que vivia em um mundo sofrido e desesperançoso. Sem dúvida, o velho mendigo ainda se permitia sonhar. Eu gostaria de me permitir o mesmo.

[daniel slater, 2ª]

a solidão iminente das coisas pequenas

A fechadura fugiu.
Estava cansada de ser inútil,
Cansada de apenas chaves frias lhe tocarem,
Sem o calor de uma mão humana.

Sobrou apenas a maçaneta,
Que por sua vez não gostava das mãos, sujas e mal agradecidas,
Tão egoístas e cheias de si.
Mãos que não a deixavam descansar.

A companhia da fechadura era um consolo.
A maçaneta ficou só, sem sentido.
Não era nada, um pedaço de ferro sujo.
Em sua grande amargura, suicidou-se.

E foi assim que a porta virou uma parede.


[pedro nagem de souza, 2ª]

[vittorio audi, 3ª]

sensibilidade na pele do asfalto

Diria que as pombas de Higienópolis são tão bem tratadas como os cães que andam desfilando peças de marcas pelas calçadas, ou como os meninos que passam em bicicletas de manhã cedo. De quipás ou cigarro na mão. Mas como Helena me falara, as pombas têm, em sua enorme maioria, problemas nas patas (não que isso seja um problema a elas, porque até agora isso não as impediu de se reproduzirem). Talvez como uma anomalia ou pandemia, costumam ter um pé deficiente, sem todos dedos, ou sequer um deles – só uma massinha desfigurada em que sua perna toda se apoia. Em dezesseis anos de São Paulo nunca reparara, e agora como que num insight, vejo na primeira que atento essa coisa figurativa de cidade grande que caminha à auto-necrose – em plena São Vicente de Paula. Higienópolis, ilustríssimo e glorioso bairro em que os mais fortes pisam as calçadas mais limpas da cidade, sublimes pombas de pés deformados cruzam seus caminhos. Alguns andam descalços, outros só querem importado, e a maioria, tem pé deformado: o mesmo contato dos pés com a pele negra e grossa do asfalto.

[isabella arnoult, 2ª]
Esperava com pressa de esperar. Porque mesmo os amantes permitidos precisam de um pouco de saudade. Talvez até de mais. E, como se sabe, os domingos das noites claras das luzes da cidade sempre foram os melhores pros amores assim. A menina atrasava porque sabia que o amor cheira a amêndoas e gengibre e, sabia também, que amêndoas dão gases.
A casa perto do aeroporto tremia da rota dos aviões. Os carros passavam num rápido enlouquecedor, misturando o cheiro de Gás Carbônico requintado com os perfumados do menino. Tudo aquilo cheirava a friozinho. Tudo aquilo teria um significado no mínimo interessante, mas ele, não lhe passava pela cabeça nem metade do que conspirava o universo para que aquela tarde fosse feliz. Sentia uma pontinha de tesão que insistia ser uma vontade de fazer xixi e gastou o almoço todo descendo e subindo as escadas, da porta pra privada, por duas horas e vinte.
Colecionava maneiras de se matar. Ainda não tinha aprendido a ser feliz apenas nos domingos.

[mônica coster ponte, 1ª]

pergunte ao joão felpudo

Querido João F.,
Tenho vivenciado uma situação um tanto quanto desagradável... Recentemente me dei conta que – justamente – perdi a conta de quantos beijos já distribuí por aí, e em todas as rodinhas que entro para conversar tem pelo menos um que eu conheço “bem”. Não que isso me envergonhe, até porque eu não saio “pegando todo mundo”, mas passou pela minha cabeça que deve ser bom ter essa noção, ao menos da média... Então, Felpudo, ajude-me. O que eu faço para saber com quantos já fiquei?
Assinado: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
[Aluna do 3º ano]


Querida Brilhantina,
Não pude deixar de notar tremenda semelhança entre seu caso, e um designado por processo eleitoral, ou vulgarmente conhecido como a Maior Festa da Democracia. Tome o caso Dilma, seu nome era pouco conhecido, assim como sua verdadeira identidade, Srta. Brilhantina. Sua campanha presidencial raramente precisava de aparições em debates, assim como você admite não sair "pegando todo mundo por aí". E apesar de ter iniciado a corrida até a rampa do planalto, observando seus candidatos lá de baixo das pesquisas, assistiu as intenções de voto a seu favor subirem de forma vertiginosa em três meses. Da mesma maneira que você, quando menos percebeu, já conhecia "muito bem" inúmeras pessoas que frequentavam suas "rodinhas".
Assim, é preciso que você repare também nas amigas à sua volta, antes abundantes, e imagino que agora sejam escassas, devida à sua “distribuição de pegadas”. Da mesma forma que se sucedeu com o candidato José Serra, ou vulgarmente conhecido como Zé Serra. Que ao início de sua campanha tinha larga vantagem nas intenções de voto em relação à então segunda colocada: Dilma Rousseff. Porém, ao escolher interagir com o presidente Lula através da competição e não mais cooperar com ele por meio de elogios, foi inevitável que a seleção popular ou natural, agora dirigida por Mano(s), escolhesse o caminho mais provável da vitória: seguir mudando a “história desse país”. Assim como você competiu, Srta. Brilhantina, com suas colegas durante a caça aos patos. Provavelmente, deixando-as ao lado do verdadeiro Pato: no banco da seleção brasileira (ou natural, ou popular?).
Em conclusão, saiba que você ocupa o topo da cadeia eleitoral.
Beijos,
João Felpudo.

ANEDOTA: Malandro é o Serra que mudou de nome para esquecerem que ele perdeu de virada.
 
[parayhdison, 3ª]

ser equipano

É muito difícil entender o que é esse "ser equipano" que todo mundo sempre fala. A expressão acaba ficando meio no ar, repleta de significado, que, pelo menos eu, nunca consegui apreender perfeitamente. Ontem, isso mudou.
A gente entra no Equipe sem saber direito o peso que carrega esse nome. Normalmente entendemos que é diferente do resto, mas acaba ficando implícito e é difícil alguém parar para questionar isso mais a fundo.
Quando você fica muito tempo no Equipe e muda para outra escola, esse diferencial que a gente nem percebe pesa; mas, depois de um tempo, a gente se acostuma e acaba esquecendo. Mas nada, nada, é melhor do que você perceber, entender e sentir o verdadeiro significado de Equipe, o que acontece, lógico, na hora em que você mais precisava.
Poder contar com as pessoas é o melhor sentimento; de confiança. De saber que, no exato momento que seus pés baterem naquela pedra, e você sentir que está perdendo o controle e que vai cair, vai ter alguém lá pra te segurar. Não só alguém, mas muitas pessoas; pessoas que podem não ser seu melhor amigo, que às vezes não te dão bom dia de manhã; pessoas que você já achava que tinha perdido, ou que você nunca imaginou que pudesse ter tido.
Esse é o significado de Equipe. Se eu pudesse colocar no dicionário, seria o mesmo que de família. Porque é isso que a gente é, apesar de tudo. Tudo mesmo. Apesar de não saber, ou de não querer, o Equipe tá na nossa vida, e é pra sempre. Pra sempre Equipe. Sempre Família Equipe.

[carolina audi, 3ª]

dois perdidos numa noite suja

Entre as atrações de agosto do Centro Cultural São Paulo, a montagem de Dois perdidos numa noite suja, do conhecido texto de Plínio Marcos, vale a parada na estação Vergueiro. Com cenário e caracterização simples, a narrativa dispensa grandes aparatos para se manter instigante até o final, contando com bons atores para encenar a história de dois homens, alguns pares de sapato e um cotidiano pouco acalentador. Não apenas pelo texto, que desde o começo – como um homem que estava do meu lado disse quando saiu da sala – é um soco no estômago, mas a sincronia dos atores no palco amarra perfeitamente os conflitos expostos pelo dramaturgo. Antes em cartaz no SESC Vila Mariana, a peça agora está na Sala Paulo Emílio Salles do CCSP, de 19 de agosto até dia 26 de setembro, podendo ser vista de quinta-feira a sábado às 21h e também aos domingos, às 20h. R$ 20. Endereço: Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso. (Estação Vergueiro da Linha 1 do Metrô). Tel.: (11) 3397-4002.

 [deborah salles, 3ª]

linha 4: salvação ou condenação?

A nova linha amarela é, talvez, o maior objeto de propaganda do governador Serra dentro de São Paulo, que deixa agora o estado para disputar a vaga de presidente da república. E não é à toa: o metrô sempre foi visto como a salvação do paulistano para a mobilidade urbana, uma vez que grandes avenidas, hoje em dia, são sinônimo de grandes congestionamentos. A fascinação por carros condenou os habitantes de São Paulo a perder horas no trânsito apenas para ir e voltar ao trabalho. Portanto, dentro deste contexto, a solução foi cavar e passar por baixo: e o metrô logo se tornou necessário para absorver o excedente e impedir que o sistema caótico de trânsito viesse a colapsar de vez. É quase mágico, quando se pensa no caos que são as ruas de São Paulo, entrar em uma estação na Vila Madalena e, menos de 1h depois, sair no Sacomã.
Não deve haver dúvidas, portanto, de como a linha amarela irá significar um benefício para a mobilidade urbana. Além de ligar o centro de São Paulo com uma área que vem recebendo cada vez mais habitantes, que fogem dos exuberantes preços do centro expandido, a linha amarela fará baldeação com as linhas 1, 2 e 3 do metrô, fora as da CPTM e expressos, ligando sistemas já existentes e facilitando o uso destes meios de transporte mais rápidos que o atual sistema viário. Será uma opção muito mais favorável do que as viagens de ônibus que, atualmente, demoram horas para serem feitas. Isto tudo sem falar da importância das estações Paulista e Faria Lima, dois grandes centros econômicos, entre outras igualmente conhecidas e importantes.
Entretanto, o que esta por trás da linha 4 do metrô? E, afinal, será que ela é mesmo a solução para o caos do sistema de transporte rodoviário?
Há muito o que dizer sobre a nova linha, a começar pelos contratos PPP (Parceria Público-Privado). Ou, como diz o jornal “Brasil de Fato¹” o início da privatização do metrô de São Paulo. A administração deixará de ser responsabilidade pública do estado e passará a ser de empresas privadas que têm, em contratos, garantias de lucros por parte do governo. Estas empresas, que terão taxas de lucros exuberantes baseadas no dinheiro pago nas catracas, são as mesmas empresas que já dominam as concessões de rodovias no estado, lucrando números inacreditáveis diariamente. Além disso, os contratos tem muita pouca transparência e pontos controversos quanto à administração e manutenção da nova linha 4 amarela.
Para entender melhor, basta olhar para o sistema de ônibus da capital. O sistema é todo terceirizado: o estado concede o direito, em contratos, a consórcios de ônibus para operar as linhas. Estes consórcios, por sua vez, têm taxas exuberantes de lucro garantidas no contrato. O resultado é o preço absurdo pago hoje em dia pela passagem: R$2,70, fora todo o dinheiro que o governo é obrigado a desembolsar todos os meses para cobrir o preço garantido no contrato. A qualidade do transporte, por sua vez, varia muito, mas é avaliada de forma negativa pela maioria dos usuários que é obrigado a esperar um tempo incerto para entrar em um ônibus lotado que anda, em média, a 12km/h nos horários de pico (dado de 2008).
Se o metrô andará nos mesmos trilhos que o setor de ônibus tomou, não é possível dizer. Mas vale pensar, dentro desta logística da terceirização, até que ponto a busca privada pelo lucro coincide com a busca pelo serviço público. Afinal de contas, se a ideia do público é oferecer um serviço bom e abrangente mantido pelo dinheiro que nós pagamos em impostos, não é estranha a ideia de que algum empresário rico irá lucrar com os impostos? Será que esta parte do dinheiro que acaba no bolso de um empresário não poderia ser usada para melhorar ainda mais a qualidade do serviço, caso não fosse necessário terceirizá-lo? Será que ainda podemos considerar transporte como sendo “Business”?
Mas a discussão dos serviços privatizados é longa e polêmica, e não deve ser o foco deste artigo.
Afinal de contas, deixando de lado o papo administrativo e indo para o papo transporte, será mesmo que a linha amarela, a grande conclusão do programa “expansão São Paulo”, é mesmo a solução de todos os problemas? O “messias” do transporte público?
Que vai ajudar, não há duvidas – uma nova linha de metrô, trem, ou expresso urbano sempre é muito bem-vinda: meios de transporte mais rápidos com capacidade de transportar muito mais passageiros em um tempo muito menor do que carros ou ônibus normais. Mas a linha 4 não é a solução. Como o próprio nome já diz, é apenas mais uma linha, que provavelmente já começará a funcionar saturada pela grande demanda que já existe. Todo o plano do expansão São Paulo não passa disso: criar algumas linhas para suportar a demanda que cresceu e para fazer propaganda política. A ideia é absorver a nova demanda, que na minha visão, não passa de fazer um remendo num pano todo rasgado.
A solução é mais profunda e muito mais trabalhosa: ela consiste em mudar a visão e o ideal de transporte do paulistano. O transporte particular é hoje visto como a solução rápida e confortável da complicada mobilidade urbana. Quer dizer, rápido já não pode ser uma afirmação nos dias de hoje, mas a verdade é que este pensamento nos remete ao modo como São Paulo foi industrializado há 60 anos, nos meados de 1950. Ali, perante um pensamento extremamente desenvolvimentista, dentro de uma cidade que se orgulhava do seu “progresso” e crescimento, crescia, financiada pelo governo, a gigante indústria automobilística. Indústria que, desde o começo, foi acusada de corrupção e se envolveu em polêmicas, mas sem dúvida cresceu economicamente e tomou lugar importantíssimo e fundamental para impulsionar o desenvolvimento que o paulistano tanto se orgulha. E, como já dito no texto, o único objetivo do privado é o lucro, ou seja, o interesse destas indústrias era (e ainda é) vender carros. E a indústria conseguiu, apoiada pelo poder público, criar um imaginário dentro da cultura paulistana que dura até hoje: o imaginário do carro como status e como a solução. Não é difícil de perceber isto dentro do cotidiano, basta ver a quantidade de carros ou a importância dada por eles pelas pessoas. E todo este interesse, que como sempre passa longe do interesse popular, fez propositalmente que o transporte público fosse posto em segundo plano. Não era interessante tê-lo, era mais interessante vender carros e aquecer a economia.
E a cada compra de carros, parcelada em mais de 100 vezes, nós, paulistanos, assinávamos, e continuamos assinando, a manutenção do caos da mobilidade urbana. Quando chegará a hora que nós entenderemos que a solução não são tuneis e viadutos, e que o problema não é o transporte público? O problema é o carro e o transporte de massa a solução. Chega de inverter as coisas: temos que colocar tudo em seu devido lugar. O transporte público tem que ser uma opção mais rápida, confiável, barata e minimamente confortável. Só então, talvez, medidas como o pedágio urbano pudessem ser pensadas como modos de impulsionar o uso do transporte público em detrimento do privado, e finalmente buscarmos uma solução real, e não provisória, para a mobilidade urbana numa das maiores megalópoles da América Latina.
Bom, acho que vale parar por aqui. A ideia do texto era buscar uma visão crítica sobre a nova linha, uma visão que vai além da propaganda do Serra ou de discursos prontos que circulam de boca em boca. Afinal de contas, muitos de nós a usaremos, e é sempre bom saber o que esta no fundo do açucareiro, tal como o Professor Rodrigo já diz (que talvez seja, neste caso, o que está no fim do túnel).
¹ http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/transporte-em-sao-paulo/view

[vitor barbosa, 2ª]

errado

[laura cruz e aldo alejandro, 3ª]

terça-feira, 20 de julho de 2010

2ª edição, junho de 2010

 [deborah salles, 3ª]

o ponto de ônibus

Era manhã, quase madrugada, e o sol não tinha nascido ainda. Vi-me no ponto de ônibus, esperando em meio à garoa e ao vento o transporte público. De fato, este já custava a passar, e cada vez mais minha impaciência crescia. Ao meu lado, havia duas senhoras de idade, sentadas de mãos dadas, e cada uma com um largo sorriso no rosto.
Talvez fossem até amigas ou irmãs, mas sem dúvida não pareciam nada menos que amantes. Ao apoiar sua cabeça no ombro da companheira, a senhora deixou claro que entre elas havia um carinho grande, forte, mútuo. Talvez até mesmo um amor.
Uma das senhoras era toda grisalha, até em seu suéter rosa. A outra era branca, com seus cabelos cor-de-neve. Claro que as duas juntas formavam um casal no mínimo singular, talvez até elegante. Mas não tão elegante quanto o homem que acabara de chegar ao ponto de ônibus, quase que onipotente em seu terno azul.
O tal homem chegou, olhou para os lados em busca de ônibus, e logo em seguida parou seu olhar sobre o casal de senhoras. Ao pousar seus olhos sobre as mãos unidas das duas, pôs em seu rosto duro um olhar de zombaria, como quem acha ridículo ao ponto de ser engraçado. Mas as senhoras não tinham percebido o olhar de deboche do homem de terno azul.
De repente, a senhora grisalha, com sua cabeça apoiada na amada, olhou para o horizonte em busca do ônibus, e seu olhar acabou cruzando com o do homem. Não houve dúvida de que ela percebeu o olhar. Mas não se mostrou brava ou ofendida, apenas sorriu, como quem desafia a seriedade e a censura usando sorriso como arma e bandeira.
O homem de terno azul colocou seu sorriso debochado no rosto, como quem engole uma gargalhada. Isso só aumentou o sorriso da senhora, que tirou a cabeça dos ombros da outra, beijou levemente os lábios da companheira e disse suavemente:
– Eu te amo, minha querida.
A senhora branca sorriu, mas não fiquei para ouvir a resposta, pois meu ônibus havia chegado. Mas não tenho dúvida de que o homem de terno azul ficou para ouvir um belo “eu também te amo”, que nem ele nem ninguém poderia debochar.

[daniel slater, 2ª]
Acordei. Não estava transformado em um repugnante inseto, mas ainda assim não era o eu que deitara naquela cama na noite anterior. Escovei meus ainda humanos dentes pensando em trivialidades que podiam ser minhas ou de qualquer outro que vivesse no mesmo planeta. Olhei pela janela, assegurei-me que ainda estava na Terra de ontem. Ufa. Paletó, chapéu, relógio. Peguei o bonde e súbito me vieram aquelas filosofias baratas de transporte público, quando os ainda tímidos raios do Sol refletem sua imagem na janela. Pensava na afetividade, acho. Digo acho porque não estou certo de que era sobre isso que pensava, minhas divagações sempre foram confusas e contraditórias. Maldita histeroneurastenia. Desci do ônibus, comprei uma Coca-Cola na máquina: Tshhhh-pá!
A escola nunca me irritou ou cansou. É verdade que nunca fui um aluno muito aplicado, mas sempre considerei importante saber sobre o mundo que me cerca. Achava a ignorância um mal a ser violentamente combatido, tal era sua disseminação na sociedade. Existi pacientemente na minha carteira por seis longas horas, entre versos e bilhetes e olhares e risadas. Um dia típico para o meu milésimo eu do mês. Cheguei à conclusão, e espero que não tarde demais, de que as pessoas são passageiras: Nossas mudanças de visão e pensamentos nada mais são do que pessoas nascendo e envelhecendo dentro da nossa casca. Nosso exoesqueleto. Não somos, afinal, repugnantes insetos?
O sinal tocou, e com ele veio o futuro. Desligada a lousa multimídia, ingerida minha ração, teletransportei-me para casa e deitei. As pessoas já não pensam. Era uma lástima quando a maioria era ignorante, mas a acefalia conformada e paciente é o fim. Antes de dormir costumava repassar mentalmente o dia que se passou. Quando acordei o que me preocupava era o amor. Pela tarde tomei as dores da humanidade frente à alienação e ignorância. E agora, no futuro longínquo, não penso mais. Sei que não penso. Penso que não penso. Há metafísica o bastante em não pensar em nada, é verdade. E dentro de mim morria uma ingênua criança.

[martim passos, aluno agregado]

alta pro equipe

o grêmio tem avisado por aí sobre o projeto de pintar as paredes da escola, mas sem um comunicado formal. aí vai: os interessados em mudar algumas das muitas áreas verdes-hospitalares das novas paredes devem mandar um projeto com sua ideia de pintura para o grêmio, até o dia 29 de junho*. o projeto pode ser individual ou coletivo, pensando ou não em uma parede específica (preferencialmente espaços de convivência, como o pátio, etc.) - mas lembramos que o desenho também passará pelo crivo da orientação.
*prazo prolongado, a ser definido.

domingo, 18 de julho de 2010

[artur parayhdison, 3ª]
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não sairia nem no caderno de esportes

O presidente Luis Inácio da Lula da Silva, certa vez, sugeriu para que fosse montada uma seleção mista entre israelenses e palestinos para enfrentar nossa camisa canária, em um amistoso. Claro que o comentário foi feito em momento de descontração, e nosso presidente não esperava resolver um dos mais graves e antigos problemas do Oriente Médio em uma partida de futebol. Mas isso não impediu que a mídia nacional fizesse do presidente, motivo de chacota. Sem problemas, já que os grandes meios de comunicação tem se mostrado, mesmo que de forma “disfarçada”, favoráveis a oposição. O fato só se confirma ao analisarmos o respaldo da última pesquisa a respeito da corrida presidencial, feita pelo instituto Vox Populi entre os dias 8 e 13/05 (maio). Neste levantamento, o candidato da oposição, José Serra (PSDB) aparece com 35% das intenções de voto, contra 38% da candidata Dilma Rousseff (PT). A pesquisa é acompanhada por uma reportagem, feita por José Roberto Toledo¹, dizendo que Serra no mês de Abril vinha com 34% dos votos, contra 31% de Dilma. Estas informações, porém, não correspondem nem mesmo ao próprio gráfico ilustrado na matéria que, por sua vez, mostra o candidato tucano, no mês de abril, com 38% das intenções de voto, enquanto a candidata petista teria registrado 33%.
Só é possível que se tire as dúvidas sobre a matéria controversa do Estado de S. Paulo no site do instituto Vox Populi, que publica os seguintes dados: em uma pesquisa publicada no dia 3/04 (abril), na qual participam da disputa os candidatos Ciro Gomes e Marina Silva, o governador de São Paulo aparecia com 34% das intenções de voto, e a candidata do partido dos trabalhadores com 31%. Já na pesquisa publicada dia 15/05 (maio), na qual o candidato Ciro Gomes já havia confirmado a retirada de sua candidatura da corrida presidencial, Dilma Rousseff aparece com 38% das intenções de voto, contra 35% de José Serra.
Nenhuma dessas intenções de voto, porém, correspondem aos dados apresentados pelo gráfico publicado no jornal, que nos mostra em abril do ano corrente a candidata petista com 33% das intenções de voto, e o candidato do PSDB com 38%. O levantamento só se organizou desta forma em um terceiro estudo feito pelo mesmo instituto em que o candidato Ciro Gomes não participava da disputa. Ou seja, o jornalista, ou quem quer que tenha editado esta matéria junto ao gráfico, não especificou sobre qual pesquisa se referia deixando, assim, a reportagem duvidosa. Afinal, ela se refere a três levantamentos diferentes, feitos em conjunturas igualmente distintas e são analisados da mesma forma.
Seja como for, nada impede que um jornal de tanta tradição, fundado em 1891, tenha publicado uma matéria tão confusa, que a primeira vista nos parece até mesmo equivocada, que tratasse justamente deste levantamento. A Folha de S. Paulo, porém, superou as expectativas de qualquer informante honesto e não se deu nem ao trabalho de lançar uma nota que fosse indicando o resultado da pesquisa, no domingo em que foi publicada (16/05). É certo que seu próprio instituto, o DataFolha, também se encarrega de pesquisas a respeito das intenções de voto, e portanto, talvez não quisesse que outra fonte de informação tivesse espaço em suas folhas. De um jeito ou de outro, a questão continua com uma resposta que dificilmente seria respeitosa aos direitos de informar.
No dia seguinte, a informação continuou a ser divulgada de maneira, no mínimo, tendenciosa. Após nosso presidente, junto ao Ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim fecharem um acordo com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad a respeito da questão nuclear do País, as matérias do jornal o Estado de S. Paulo reiteravam a importância da diplomacia turca no acordo². É certo que o governo iraniano só aceito realizar a troca de urânio, que poderia ser enriquecido para produção de bombas atômicas, por combustível nuclear (enriquecido a 20% utilizado para fins de pesquisa), no território turco. Porém, o único intermediário entre Irã e Ocidente de real importância mundial foi o Brasil, liderado por nosso presidente e por todo corpo do Itamaraty, que conseguiram um resultado de enorme relevância na política internacional.
Todas estas conquistas foram pouco ressaltadas pelo jornal, que preferiu dar a devida importância ao fato do chanceler turco ter se pronunciando primeiro. Esquecendo o fato de que o Brasil, por mais que o tratado, e as vontades pacifistas do Irã sejam falsos, foi o único capaz de intermediar estes dois pólos ideológicos, Oriente e Ocidente, para uma resolução tranqüila. Enquanto Obama, junto ao Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), buscava formas de sancionar o país e impedir através da força que ele continuasse suas pesquisas.
Lula, mesmo com o nível de aprovação de governo beirando a margem dos 75%, continua alcançando marcas nunca antes vistas “na história deste país”, como ele mesmo diria. E mesmo quando o próprio candidato da oposição tenta assemelhar seu plano de governo com o do adversário, em tudo aquilo que lhe é possível, a grande mídia continua tentando rebaixá-lo a um nível de político comum. Para isso, se utiliza de técnicas como a manipulação dos pontos de vista de forma disfarçada. Dessa forma, o jornal acaba por perder a legitimidade que tanto briga em seus discursos a respeito da liberdade de imprensa, pois a confunde com liberdade de expressão, e se esquece de que após se declarar neutro tem a função de informar e não influenciar, se é que isto existe. Por isso, que o jogo, que fora certa vez proposto por Lula acredito que só teria espaço no caderno de esportes, se acarretasse, no mínimo, uma briga entre israelenses e palestinos pela não convocação do meia santista, Paulo Henrique Ganso, para o jogo.

¹ Reportagem publicada na página A7 do Jornal O Estado de S. Paulo no dia 16/05/2010.
² Conjunto de matérias com o nome de Conjunto Diplomático, publicado na página A10 do Jornal O Estado de S. Paulo no dia 17/05/2010.

[joão felpudo]

o pré-sal é nosso

Quatro é o número de projetos do pré-sal enviados ao Congresso:
O primeiro altera o modelo atual de contrato de concessão para um sistema de partilha, o segundo cria a Petro-sal, estatal que vai gerenciar o pré-sal, o terceiro estabelece um Fundo Social para gerir e distribuir os recursos e o quarto prevê a capitalização da Petrobras.
– Mas afinal, o que é a camada pré-sal?
Localizada abaixo do oceano, cerca de 7km de profundidade, a camada pré-sal, de acordo com seu nome, está antes de uma espessa camada de sal, a qual alguns pesquisadores atribuem o fato de preservar a imensa quantidade de uma preciosa fonte de energia: o petróleo, encontrado nessa camada.
Cabe ao Brasil como dono dessa mina de petróleo, gás natural e outros hidrocarbonetos do pré-sal tomar iniciativas para melhor utilizá-lo, pois logo atrás, milhares de olhares ambiciosos estão querendo nosso petróleo e muitos estão loucos para entregá-lo a empresas internacionais. É por esse motivo que há tanta urgência para a avaliação dos projetos.
Todos os quatro projetos fazem parte de um projeto maior que irá realizar grandes mudanças para a situação do nosso país.
Esses projetos modificam uma lei criada no governo FHC em 1997. Lei a qual acabou com o monopólio estatal do petróleo da Petrobrás mudando a constituição para que as companhias estrangeiras explorassem o nosso petróleo. Foi nessa época que Fernando Henrique denominou de "Dinossauros" aqueles que defendiam o monopólio do petróleo e tinham nostalgia da campanha "O petróleo é nosso". Essa lei denominada regime de concessão dizia que todo o petróleo extraído por uma empresa estrangeira é pertencente a ela. O primeiro projeto do pré-sal quer acabar com o regime de concessão, criando o sistema de partilha. O sistema de partilha faz com que todo o petróleo extraído seja da União e é ela que fará o pagamento para as empresas estrangeiras em óleo. Além disso, as empresas estrangeiras necessitam se associar a Petrobrás que será operadora de todas as empresas estrangeiras, cobrindo 30% dos gastos para instalá-las e os outros 70% elas que cobrirão. O Petro-sal entra nesse caso como uma pequena empresa que irá ser responsabilizada pela regularização da exploração do petróleo. Por exemplo, se o petróleo estiver em alta no mercado, o Petro-sal irá autorizar a exploração de petróleo para a Petrobrás e as empresas estrangeiras associadas e determinará também a percentagem que ficará com ela. Os lucros do Petro-sal irão para um fundo soberano ou fundo social que irá investir na educação, saúde, diminuição da miséria, nas indústrias e na inovação tecnológica, nas pesquisas.
O projeto do Pré-sal foi aprovado pela Câmara, mas necessita passar pelo Senado. Dessa maneira, foi preciso fazer vários acordos com a oposição para a aceleração da votação desse projeto. Além disso, o Pré-sal foi aprovado pelo IBAMA e o ministério do meio ambiente.
Os tucanos estão contra esses projetos, mas sabem que ao se declarem contra, eles irão perder as eleições, pois serão acusados de entreguistas do petróleo nacional. José Serra já não diz nada sobre sua posição, mas foi em 1997 que ele como nosso senador aprovou a lei do FHC entregando nosso país para as empresas estrangeiras.

[luna zarattini, 3ª]

exploração das cercanias

Levando apenas alguns minutos e outros tantos passos daqui da escola, o SESC Consolação pode ser considerado praticamente um vizinho. Como esse ano o bairro ainda está sendo descoberto, e futuramente colonizado, nada melhor do que os arredores contarem com nossa presença inédita. Aí entra o programa da vez: o SESC apresenta, desde janeiro desse ano, a peça “Lamartine Babo”. Com texto de Antunes Filho e dirigida por Emerson Danesi, a atração conta a história de uma banda que, ensaiando as músicas do grande compositor, é surpreendida por uma visita. O horário, porém, não é dos mais confortáveis para ávidos estudantes: às quintas-feiras, 21h. A vantagem é que, para os mesmos ávidos estudantes com suas respectivas carteirinhas, a meia custa 5 reais (para os já desprovidos das bênçãos estudantis, a multiplicação do ingresso inteiro é das mais simples). Bem, as férias estão aí e a temporada vai até dia 29 de julho.

Endereço: Espaço CPT 7º andar. Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque. Tel: (11) 3234-3000

[deborah salles, 3ª]

quarta-feira, 19 de maio de 2010

1ª edição, maio de 2010

[joão vicente, 1ª]

os tão falados armários

Armários? Sim, armários! E até com portas vermelhas para combinar com a cor do símbolo do colégio!
Antes não tinha nenhum, agora até no patamar da escada encontram-se armários!
É isso aí, agora vai ser menos peso nas costas, um ombro mais relaxado e menos trabalho pras massagistas!
O que era um problema se desproblemou! Mas não foi fácil desproblematizar isso não! Depois de muito pedirmos, dos pais pedirem, de nós questionarmos, propormos soluções bem viáveis e outras completamente inviáveis, (propusemos até usar caixas de papelão como armários), falarmos pessoalmente com o diretor e à ele entregarmos propostas da onde poderiam colocar os tão esperados armários, e pedirmos uma resposta de volta. Não havendo resposta nenhuma resolvemos dar um toque final, colocamos um poema com cores chamativas no mural do grêmio com frases provocativas, e é claro, espalhamos balanças com o nosso material do dia para mostrarmos que não era apenas uma questão de conforto pra costas, mas também de saúde.
Agora, estão aí, novinhos em folha e pronto para serem usados!
Não queríamos os armários? Pois então, fomos atrás deles, e não é que agora nós os temos? Mesmo tendo que escutar que a nossa manifestação não mudou nada na decisão da diretoria, foi após esta que eles vieram até nós para nos darem a esperada resposta de que os armários já estavam encomendados.
Nós estudamos em uma escola que é famosa por dizerem que os alunos tem a sua opinião e que podem a expor, e foi isso que fizemos. Acho que é assim que vamos aprender a lidar com o mundo lá fora, porque nem sempre terão os armários embutidos e prontos como havia no equipe antigo, às vezes teremos que buscá-los de uma outra forma, portanto é isso que tentamos fazer, e mesmo que insistem que a nossa persistência não fez diferença na hora da decisão final, imagine só se nunca tivemos nem tocado no assunto de armários quanto tempo iria demorar... talvez uns seis meses, não?

[angel homem de mello, 2ª]
[heron luiz barros, 1ª]

uma marcha qualquer...

Antes de qualquer palavra, esta é uma resposta ao texto “Reforma na política de drogas é necessário?” de Luca Magri, texto este presente nesta mesma edição do jornal. Quero esclarecer que o jornal é o espaço para a discussão e que esta por sua vez só pode existir se houverem iniciativas como estas. Mas vamos às vias de fato:
1º de Maio de 2010, Rio de Janeiro: Passeata a favor de direitos trabalhistas? Pela Reforma Agrária? Por uma educação pública de qualidade? Não! No dia do trabalhador o que de fato aconteceu foi a Marcha da Maconha.
Uma organização mundial, com entidades de todos os tipos e indivíduos de todas as tribos, digo, quase todas. Promove em mais de trezentas cidades, uma marcha pela legalização da maconha. A de São Paulo ocorrerá no próximo dia 23, contando com a presença em massa da juventude paulistana.
Mas o que isso de fato representa? Antes de qualquer juízo sobre a marcha tenho de deixar claro que sou a favor da legalização do uso da maconha, pois a vejo não como um problema moral, mas sim de saúde pública e nesse campo acredito que as drogas têm suas funções sociais que são válidas, mas que devem ser pensadas com cabeça fria e de preferência, sóbria.
O que de fato me incomoda é essa posição perante a droga: que está muito bem ilustrada no texto “Reforma na política de drogas é necessário?” . Primeiramente acreditar que o que de fato precisamos no Brasil é uma reforma na política de drogas é não entender o que se pensa sobre drogas e principalmente a quem se destina essa discussão. Necessitamos de uma mudança na estrutura da concepção que o Estado brasileiro tem sobre drogas psicoativas e não apenas uma reforma, pois esta, se feita legitima a estrutura arcaica da nossa sociedade quanto ao assunto (diferentemente de uma mudança estrutural)
Este movimento e seus defensores não entendem que estas ambições são meramente representações de filhos da elite com suas respectivas angustias de classe dominante: “fumo ou num fumo?”.
E mais, não compreendem que para tornar “ assim, o mundo mais justo e democrático” como disse Luca, é necessário, antes de legalizar a droga, democratizar a discussão sobre maconha. Pois enquanto nós, filhos da burguesia, nos preocupamos com a erva (liberada ou não), na periferia os jovens tem de se preocupar se serão assassinados por grupos de policiais, como estamos acompanhando diariamente.
Cria-se a ilusão que a questão da maconha ultrapassa as fronteiras sociais, quando na verdade, apesar do uso da maconha ser grande entre os jovens de diversas camadas socioeconômicas, sua utilização não representa, diretamente, que os jovens da periferia e de baixa renda estejam integrados nessa discussão. E se pretende ser um movimento justo e democrático, necessita dialogar em todas as esferas sociais, caso contrário continuará sendo um “chilique de pequeno burguês”.
A droga necessita ser debatida sim, como o movimento propõe, mas não sob o ótica escolhida. A droga, a meu ver, deve ser debatida pela sua presença na sociedade (e acreditem, quando digo sociedade vai além da Vila Madalena). Como algo recorrente em todos os setores sociais, deve ser pensado por todos os mesmos.
Não é menosprezar a questão da maconha, mas se chegamos ao ponto de nossa juventude se preocupar com a legalização da maconha em pleno 1º de Maio, com tantas causas mais justas e dignas a serem abraçadas, é por que de fato, nos encontramos totalmente ilhados da nossa estrutura e da compreensão do poder de atuação política que temos.
Questões como legalização do aborto, da educação na rede publica: por que nós não vamos pras ruas por estas causas? Estas sim são causas democráticas e justas, mas não, cada um defende seu peixe com a arma que tem, não é mesmo?
Por fim, um movimento deste caráter é, na minha humilde opinião de filho do mesmo nicho social, um movimento alienado à sua própria causa, pois não entende em que problemas estruturais da sociedade a questão das drogas estão enraizadas.
Embora a legalização da maconha seja uma reivindicação justa, ela se configurou nesta Marcha da Maconha como um movimento de elite, tanto quanto a ”Marcha da Família com Deus pela Liberdade” que foi um dos estopins conservadores do golpe de 64.
É uma pena, e uma realidade.

[vitor quarenta, 3ª]

reforma na política de drogas é necessário?

Cada vez mais o assunto sobre a liberação de substâncias psicoativas vem sendo pauta em debates entre ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso, Ernesto Zedillo, César Gaviria e as comissões latino-americanas sobre drogas e democracia. Dados vêm apontando que o número de adolescentes entre 15 e 16 anos que já experimentaram alguma droga ilegal está subindo, e na Inglaterra esse número representa quase a metade dos cidadãos entre essas idades.
A guerra ao tráfico vem mostrando ineficácia. Com a proibição das drogas, como diz, Jack Cole, ex-detetive, jovens usuários financiam o tráfico quando compram maconha, cocaína ou ecstasy, e fazê-los entenderem o quão complexo é este problema já é inútil, pois mesmo tendo ciência, não param de usar as substâncias. O que deve ser feito, continua John Grieve, ex-comandante da Scotland Yard, é uma reforma na política de droga, já que esta mostra incongruências em sua construção, e o assunto já passou de ser um tabu.
No último encontro dos grandes nomes que hoje defendem a liberação de substâncias psicoativas, Grieve apresentou aos participantes sua lista de “10 Razões para Legalizar as Drogas”, e nela continha dados apontando que o menor número de usuários adolescentes na Europa provém da Holanda, único país oficialmente legalizado; e que hoje 1,5 milhão de pessoas usam ecstasy aos fins de semana. O que mostra que a proibição não funciona.
No Brasil o assunto ainda é tratado de forma instável pelo Ministério da Justiça. Ora alegam que a proibição é o que sustenta o tráfico, ora proíbem manifestações públicas, um direito do cidadão segundo a Constituição, como a Marcha da Maconha, uma organização que luta por reformas na política de drogas através de discussões em torno da polêmica.
A Argentina, em meados do ano passado, descriminalizou o uso de maconha. Claro, descriminalização não é a mesma coisa que legalização, pois o uso e porte da substância apenas deixam de ser crime, em alguns casos, frente ao Estado. Por exemplo, é legal portar a droga, porém consumi-la em vias públicas é ilegal. Independente disto, a Argentina foi o primeiro país sul-americano a dar este passo tão grande frente à política de drogas mundial. Vamos ver se essa ação encoraja outros países a seguir o exemplo, tornando, assim, o mundo mais justo e democrático.

[luca magri, 3ª]
[deborah salles, 3ª]

vidas de areia

O sertão vai entrando pelo nariz e pelos olhos de Volta Seca. Entra seco. O trem já cavou muito pra dentro da Bahia. A brisa do mar de Salvador para aquela direção parece que não quer ir. Para aquela direção parece que ninguém quer ir. Ninguém vai ao sertão. As pessoas já nascem nele. Só Volta Seca que quer ir encontrar lá a vingança da miséria junto a Lampião. O trem vai devagar e o som dos trilhos naquele silêncio incomoda. Em Salvador, Volta Seca tinha a impressão de que o mundo fazia mais barulho. Vai vendo o sertão passar. A caatinga tenta gritar, mas não consegue. Volta Seca foi para gritar pela caatinga. Era hora de gritar. Ele sai do trem num pulo. As planícies avermelhadas incomodam seus olhos. Vaqueiros, crianças sem nome, mães e mães e cachorros e meninos e a água, não há água. Se mete numa cidade, que não é cidade, é sertão: cidade é Salvador, sertão é sertão. Volta Seca sabe que lá também os homens ricos eram ruins. Que lá iria realizar sua missão de vida, matar soldados de polícia e libertar o agreste sendo então o mais novo Pedro Bala, o mais novo Lampião. Não tardou a se meter em encrenca. Foi roubar numa feira: comida mesmo pra viver. Mas daí o pegaram, e a mão do soldado sertanejo doía mais do que a do soldado de Salvador. Na cadeia, bateram mais nele quando falou que era afilhado de Lampião. Então ele repetiu que era sim e bateram mais. O jogaram numa cela. Seca. Lotada de homem que parecia bicho, seminus, deviam nem ter feito nada, pensou. Pareciam já ter engolido aquele injustiça. Achegou-se em um que soltava grunhidos de animais. Todo ele era seco, sua pele dura, muito claro, mas a poeira o deixava marrom. “Como se chama?”, perguntou Volta Seca.
“Fabiano”, disse o homem com dificuldade. Fabiano. Esse cabra devia ser vaqueiro, pai de alguma daquelas famílias que viu se arrastando pela estrada. “Por que te prenderam?”, Volta Seca quis saber. “Foi o soldado amarelo que me prendeu”. Volta Seca sabia de quem o homem estava falando. Percebeu que o tal Fabiano parecia inconformado. “Ele me prendeu também. Quando sair daqui vou matá-lo. Matar todos eles.” O homem da pele dura estranhou a fala raivosa do moleque. Se via conformado, menor e incapaz de dizer aquelas coisas. No fundo, tinha o mesmo ódio. “Vou matar todos eles”, continuou empolgado, “os soldados de polícia, os governantes!”. Fabiano não entendeu. Para ele o governo não era quem prendia. O governo era sim longe, e ele era pequeno, era bicho, bruto. Tentou arriscar algumas palavras. “Se eu conseguisse falar bonito, ia dizer tudo pro soldado amarelo”. O homem falava meio encabulado, com dificuldade. Como se tivesse pedra na boca. Volta Seca estava acostumado a falar com os Capitães da Areia, falar e gritar e reclamar e agir muito sempre. Mas entendia os silêncios pausados de Fabiano. Ele não tinha água. Pelo menos em Salvador havia o mar, as pessoas. Volta Seca pensou que entendia tanto os sertanejos porque era um deles também. Viera para libertá-los e extravasá-los de todo aquele ódio e pobreza.
Não demorou a ser liberado. Como na Bahia, os soldados só queriam ralhar com ele, se divertir batendo nos pobres. Saiu ainda mais revoltado do que quando entrou. Pensava forte em Fabiano, imaginava sua família ali na beira daquele nada, carregando criancinhas fracas que lhe faziam lembrar dos companheiros do trapiche, meninas mulheres como Dora que viviam como animais para aguentar aquela seca. Eram vidas de areia, mas não da areia da praia que forrava o trapiche, areia do sertão que machuca os olhos, machuca o corpo e é fraca, logo desfaz.
Ia andando mais devagar do que o trem. Queria e pensava só em encontrar Lampião. Com ele iria matar todos aqueles soldados que em algum lugar, fosse em Salvador ou no sertão, tivessem prejudicado algum pobre e piorado sua pobreza. Pois não mais o fariam com ele e Lampião juntos – e era nisso que Volta Seca acreditava, e por isso ia, andava.

[beatriz demasi, 1ª]

trechos de texto escolar

... Seria o tempo algo natural? Será que o tempo existe e sempre existiu, desde o começo de tudo? As mudanças são sempre necessárias quando existem corpos e espaço? Para criar tudo não foi necessário o tempo, como ele mesmo surgiu?
... É tão difícil explicar o tempo exatamente porque estamos dentro dele. Nós vivemos o tempo e tudo o que existe no mundo o tem como companheiro eterno, assim é quase impossível observá-lo para tirar conclusões, pois na verdade é o tempo que nos observa e nos tem. Nós não possuímos o tempo, apenas temos capacidade da noção de sua existência... Ou será que não? Temos tanta certeza da existência do tempo porque de fato as mudanças acontecem, isso é comprovado por todas as nossas formas de conhecimento, científico, espiritual, de vida. A grande questão é que dar um nome ao tempo o torna algo real, mas, lembrando da frase de Santo Agostinho, tornando-o algo pensável, é impossível explicá-lo. É como se o tempo fizesse parte de nós, porque o compreendemos se apenas o deixamos correr, mas se tentamos defini-lo como algo externo ele parece irreal (em relação ao tempo: “se não me perguntam, eu sei. Se me perguntam, ignoro”). Apesar disso, ter noção de tempo é algo necessário na vida dos homens, pois só assim ele consegue ter mais segurança de seus atos e objetivos
... É ainda mais difícil buscar respostas para o tempo do que para nosso propósito no planeta pois as referências que temos são na maioria culturais. Por exemplo, a forma que se dá ao tempo. Normalmente a cultura ocidental imagina o tempo linear, onde as coisas se desenvolvem em fases, sempre seguindo em frente e em progresso, para ruim ou para bom. Já nas culturas orientais o tempo geralmente é visto como um ciclo onde as coisas sempre se repetem, não da mesma forma, mas que o tempo dá voltas em si mesmo, e tudo que passará alguma vez já passou, sendo esses fatos ou formas de energia. Esses pensamentos influenciam diretamente no modo de se ver a vida também. Podemos ver a vida como uma estrada longa e sem caminho certo, na qual nós mesmos o criamos, ou podemos vê-la como um eterno recomeço, com ciclos. Enfim, é possível dizer que o tempo influencia em muitas e variadas coisas na vida das pessoas.
Podemos dizer que o homem cria seu próprio tempo. Por conseguir trazer a idéia de tempo para sua mente, o controle que possui sobre ele é interno, mas assim pode pelo menos controlar a si mesmo no tempo. Quando consegue medi-lo e através da história separá-lo e classificá-lo ele passa a utilizá-lo da mesma forma que utiliza a natureza: seguindo suas próprias regras e através de seus meios se situando para conseguir o que quer. Isso o iguala a algo natural. Mais do que isso, a única coisa que temos certeza de que é a natural é a própria natureza, e ela mesma está intrinsecamente ligada com o tempo. Está certo que o homem pode perceber e ver o tempo, é sua capacidade de estar no presente e sentir as mudanças conscientemente. Mas ele mesmo assim está dentro de sua roda, por isso não é possível prever se há algo maior do que nosso intelecto pode alcançar. O tempo é anterior ao homem, e digo que sim, é algo natural. Porém não esse tempo que conhecemos, marcamos e percebemos, mas um tempo que não possui nome, espaço ou tempo.

[josefina schiller, 3ª]