domingo, 18 de julho de 2010

não sairia nem no caderno de esportes

O presidente Luis Inácio da Lula da Silva, certa vez, sugeriu para que fosse montada uma seleção mista entre israelenses e palestinos para enfrentar nossa camisa canária, em um amistoso. Claro que o comentário foi feito em momento de descontração, e nosso presidente não esperava resolver um dos mais graves e antigos problemas do Oriente Médio em uma partida de futebol. Mas isso não impediu que a mídia nacional fizesse do presidente, motivo de chacota. Sem problemas, já que os grandes meios de comunicação tem se mostrado, mesmo que de forma “disfarçada”, favoráveis a oposição. O fato só se confirma ao analisarmos o respaldo da última pesquisa a respeito da corrida presidencial, feita pelo instituto Vox Populi entre os dias 8 e 13/05 (maio). Neste levantamento, o candidato da oposição, José Serra (PSDB) aparece com 35% das intenções de voto, contra 38% da candidata Dilma Rousseff (PT). A pesquisa é acompanhada por uma reportagem, feita por José Roberto Toledo¹, dizendo que Serra no mês de Abril vinha com 34% dos votos, contra 31% de Dilma. Estas informações, porém, não correspondem nem mesmo ao próprio gráfico ilustrado na matéria que, por sua vez, mostra o candidato tucano, no mês de abril, com 38% das intenções de voto, enquanto a candidata petista teria registrado 33%.
Só é possível que se tire as dúvidas sobre a matéria controversa do Estado de S. Paulo no site do instituto Vox Populi, que publica os seguintes dados: em uma pesquisa publicada no dia 3/04 (abril), na qual participam da disputa os candidatos Ciro Gomes e Marina Silva, o governador de São Paulo aparecia com 34% das intenções de voto, e a candidata do partido dos trabalhadores com 31%. Já na pesquisa publicada dia 15/05 (maio), na qual o candidato Ciro Gomes já havia confirmado a retirada de sua candidatura da corrida presidencial, Dilma Rousseff aparece com 38% das intenções de voto, contra 35% de José Serra.
Nenhuma dessas intenções de voto, porém, correspondem aos dados apresentados pelo gráfico publicado no jornal, que nos mostra em abril do ano corrente a candidata petista com 33% das intenções de voto, e o candidato do PSDB com 38%. O levantamento só se organizou desta forma em um terceiro estudo feito pelo mesmo instituto em que o candidato Ciro Gomes não participava da disputa. Ou seja, o jornalista, ou quem quer que tenha editado esta matéria junto ao gráfico, não especificou sobre qual pesquisa se referia deixando, assim, a reportagem duvidosa. Afinal, ela se refere a três levantamentos diferentes, feitos em conjunturas igualmente distintas e são analisados da mesma forma.
Seja como for, nada impede que um jornal de tanta tradição, fundado em 1891, tenha publicado uma matéria tão confusa, que a primeira vista nos parece até mesmo equivocada, que tratasse justamente deste levantamento. A Folha de S. Paulo, porém, superou as expectativas de qualquer informante honesto e não se deu nem ao trabalho de lançar uma nota que fosse indicando o resultado da pesquisa, no domingo em que foi publicada (16/05). É certo que seu próprio instituto, o DataFolha, também se encarrega de pesquisas a respeito das intenções de voto, e portanto, talvez não quisesse que outra fonte de informação tivesse espaço em suas folhas. De um jeito ou de outro, a questão continua com uma resposta que dificilmente seria respeitosa aos direitos de informar.
No dia seguinte, a informação continuou a ser divulgada de maneira, no mínimo, tendenciosa. Após nosso presidente, junto ao Ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim fecharem um acordo com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad a respeito da questão nuclear do País, as matérias do jornal o Estado de S. Paulo reiteravam a importância da diplomacia turca no acordo². É certo que o governo iraniano só aceito realizar a troca de urânio, que poderia ser enriquecido para produção de bombas atômicas, por combustível nuclear (enriquecido a 20% utilizado para fins de pesquisa), no território turco. Porém, o único intermediário entre Irã e Ocidente de real importância mundial foi o Brasil, liderado por nosso presidente e por todo corpo do Itamaraty, que conseguiram um resultado de enorme relevância na política internacional.
Todas estas conquistas foram pouco ressaltadas pelo jornal, que preferiu dar a devida importância ao fato do chanceler turco ter se pronunciando primeiro. Esquecendo o fato de que o Brasil, por mais que o tratado, e as vontades pacifistas do Irã sejam falsos, foi o único capaz de intermediar estes dois pólos ideológicos, Oriente e Ocidente, para uma resolução tranqüila. Enquanto Obama, junto ao Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), buscava formas de sancionar o país e impedir através da força que ele continuasse suas pesquisas.
Lula, mesmo com o nível de aprovação de governo beirando a margem dos 75%, continua alcançando marcas nunca antes vistas “na história deste país”, como ele mesmo diria. E mesmo quando o próprio candidato da oposição tenta assemelhar seu plano de governo com o do adversário, em tudo aquilo que lhe é possível, a grande mídia continua tentando rebaixá-lo a um nível de político comum. Para isso, se utiliza de técnicas como a manipulação dos pontos de vista de forma disfarçada. Dessa forma, o jornal acaba por perder a legitimidade que tanto briga em seus discursos a respeito da liberdade de imprensa, pois a confunde com liberdade de expressão, e se esquece de que após se declarar neutro tem a função de informar e não influenciar, se é que isto existe. Por isso, que o jogo, que fora certa vez proposto por Lula acredito que só teria espaço no caderno de esportes, se acarretasse, no mínimo, uma briga entre israelenses e palestinos pela não convocação do meia santista, Paulo Henrique Ganso, para o jogo.

¹ Reportagem publicada na página A7 do Jornal O Estado de S. Paulo no dia 16/05/2010.
² Conjunto de matérias com o nome de Conjunto Diplomático, publicado na página A10 do Jornal O Estado de S. Paulo no dia 17/05/2010.

[joão felpudo]

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