terça-feira, 20 de julho de 2010

o ponto de ônibus

Era manhã, quase madrugada, e o sol não tinha nascido ainda. Vi-me no ponto de ônibus, esperando em meio à garoa e ao vento o transporte público. De fato, este já custava a passar, e cada vez mais minha impaciência crescia. Ao meu lado, havia duas senhoras de idade, sentadas de mãos dadas, e cada uma com um largo sorriso no rosto.
Talvez fossem até amigas ou irmãs, mas sem dúvida não pareciam nada menos que amantes. Ao apoiar sua cabeça no ombro da companheira, a senhora deixou claro que entre elas havia um carinho grande, forte, mútuo. Talvez até mesmo um amor.
Uma das senhoras era toda grisalha, até em seu suéter rosa. A outra era branca, com seus cabelos cor-de-neve. Claro que as duas juntas formavam um casal no mínimo singular, talvez até elegante. Mas não tão elegante quanto o homem que acabara de chegar ao ponto de ônibus, quase que onipotente em seu terno azul.
O tal homem chegou, olhou para os lados em busca de ônibus, e logo em seguida parou seu olhar sobre o casal de senhoras. Ao pousar seus olhos sobre as mãos unidas das duas, pôs em seu rosto duro um olhar de zombaria, como quem acha ridículo ao ponto de ser engraçado. Mas as senhoras não tinham percebido o olhar de deboche do homem de terno azul.
De repente, a senhora grisalha, com sua cabeça apoiada na amada, olhou para o horizonte em busca do ônibus, e seu olhar acabou cruzando com o do homem. Não houve dúvida de que ela percebeu o olhar. Mas não se mostrou brava ou ofendida, apenas sorriu, como quem desafia a seriedade e a censura usando sorriso como arma e bandeira.
O homem de terno azul colocou seu sorriso debochado no rosto, como quem engole uma gargalhada. Isso só aumentou o sorriso da senhora, que tirou a cabeça dos ombros da outra, beijou levemente os lábios da companheira e disse suavemente:
– Eu te amo, minha querida.
A senhora branca sorriu, mas não fiquei para ouvir a resposta, pois meu ônibus havia chegado. Mas não tenho dúvida de que o homem de terno azul ficou para ouvir um belo “eu também te amo”, que nem ele nem ninguém poderia debochar.

[daniel slater, 2ª]

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