sábado, 28 de agosto de 2010
frio
Fazia frio naquela manhã de outono. De fato, não era mais tão cedo, mas o frio matutino persistia corroendo meus ossos e machucando meu ser. Mesmo assim, corroído de frio, saí às ruas em busca do que fazer, nenhum objetivo traçado, exceto o pensamento nublado de comprar meu almoço e tentar encontrar algum rosto conhecido.
Andando em uma rua vazia, percebi que as manhãs ensolaradas eram mais charmosas no outono, mesmo com o maldito frio que queimava minhas mãos nuas. Foi então que vi um grupo de gente amontoada, aparentemente observando alguma coisa. Curioso, me aproximei para ver o que era, e acabei me integrando ao bolo de pessoas sedentas de curiosidade. No centro da roda, havia um velho mendigo deitado no chão, encolhido e enrugado. Ele segurava um livro velho e antigo, e um trapo em frangalhos que um dia fora uma coberta. Sem dúvida, entre as rugas e fuligem, se via um rosto pálido e frio, e seus olhos fechados lhe davam a impressão de que seu sono há anos não era tão decente. Uma mulher do grupo disse, corajosa:
– Ele morreu de frio, eu acho.
De fato, o mendigo que parecia dormir tranquilamente entre seu sofrimento estava morto. Morrera de frio, afinal sua coberta em farrapos e sua pouca roupa não pareciam ser suficientes para combater o frio terrível que fazia nas noites escuras daquele outono, que nunca fora tão gélido. Seu corpo encolhido mostrava o sofrimento do velho, e sua magreza só deixava claro o quanto o velho fora castigado pelo mundo. Talvez a pena que todos nós sentíamos fosse muito maior que nosso pesar, ninguém sofreria com a morte do indigente, nem ele mesmo. Restava saber o que se faria com o corpo velho mendigo, ou melhor dizendo, ficamos nos perguntando silenciosamente quem chamávamos para recolher o corpo. Um jovem disse, displicentemente:
– Melhor chamar a polícia ou o IML, antes que comece a feder.
Mesmo grosseiro, não havia quem discordasse do jovem, muito menos eu. Alguém em meio ao grupo ligou para a polícia, e se encarregou caridosamente de aguardar junto ao defunto até eles chegarem. Começamos a nos dispersar, seguindo nossos caminhos. A manhã já não era mais tão charmosa. Estou certo que de a única coisa que cada um de nós queria era continuar vivendo sua vida, e a memória que sobraria do velho mendigo morto pelo frio em nós apenas remeteria ao fato de termos um frio assassino no outono paulistano.
Antes de seguir vagando, voltei para dar uma ultima olhada no mendigo, imaginando por quanto tempo ainda me lembraria de seu rosto. Foi então que percebi realmente o livro em seus braços. Era uma edição antiga de um livro de contos de fadas, que se mantinha junto graças a uma fita adesiva também muito antiga. Ora, um livro infantil muito antigo, talvez até mais antigo que seu dono. Um reduto de fantasia e sonho, nos braços de um indigente que vivia em um mundo sofrido e desesperançoso. Sem dúvida, o velho mendigo ainda se permitia sonhar. Eu gostaria de me permitir o mesmo.
[daniel slater, 2ª]
Andando em uma rua vazia, percebi que as manhãs ensolaradas eram mais charmosas no outono, mesmo com o maldito frio que queimava minhas mãos nuas. Foi então que vi um grupo de gente amontoada, aparentemente observando alguma coisa. Curioso, me aproximei para ver o que era, e acabei me integrando ao bolo de pessoas sedentas de curiosidade. No centro da roda, havia um velho mendigo deitado no chão, encolhido e enrugado. Ele segurava um livro velho e antigo, e um trapo em frangalhos que um dia fora uma coberta. Sem dúvida, entre as rugas e fuligem, se via um rosto pálido e frio, e seus olhos fechados lhe davam a impressão de que seu sono há anos não era tão decente. Uma mulher do grupo disse, corajosa:
– Ele morreu de frio, eu acho.
De fato, o mendigo que parecia dormir tranquilamente entre seu sofrimento estava morto. Morrera de frio, afinal sua coberta em farrapos e sua pouca roupa não pareciam ser suficientes para combater o frio terrível que fazia nas noites escuras daquele outono, que nunca fora tão gélido. Seu corpo encolhido mostrava o sofrimento do velho, e sua magreza só deixava claro o quanto o velho fora castigado pelo mundo. Talvez a pena que todos nós sentíamos fosse muito maior que nosso pesar, ninguém sofreria com a morte do indigente, nem ele mesmo. Restava saber o que se faria com o corpo velho mendigo, ou melhor dizendo, ficamos nos perguntando silenciosamente quem chamávamos para recolher o corpo. Um jovem disse, displicentemente:
– Melhor chamar a polícia ou o IML, antes que comece a feder.
Mesmo grosseiro, não havia quem discordasse do jovem, muito menos eu. Alguém em meio ao grupo ligou para a polícia, e se encarregou caridosamente de aguardar junto ao defunto até eles chegarem. Começamos a nos dispersar, seguindo nossos caminhos. A manhã já não era mais tão charmosa. Estou certo que de a única coisa que cada um de nós queria era continuar vivendo sua vida, e a memória que sobraria do velho mendigo morto pelo frio em nós apenas remeteria ao fato de termos um frio assassino no outono paulistano.
Antes de seguir vagando, voltei para dar uma ultima olhada no mendigo, imaginando por quanto tempo ainda me lembraria de seu rosto. Foi então que percebi realmente o livro em seus braços. Era uma edição antiga de um livro de contos de fadas, que se mantinha junto graças a uma fita adesiva também muito antiga. Ora, um livro infantil muito antigo, talvez até mais antigo que seu dono. Um reduto de fantasia e sonho, nos braços de um indigente que vivia em um mundo sofrido e desesperançoso. Sem dúvida, o velho mendigo ainda se permitia sonhar. Eu gostaria de me permitir o mesmo.
[daniel slater, 2ª]
a solidão iminente das coisas pequenas
A fechadura fugiu.
Estava cansada de ser inútil,
Cansada de apenas chaves frias lhe tocarem,
Sem o calor de uma mão humana.
Sobrou apenas a maçaneta,
Que por sua vez não gostava das mãos, sujas e mal agradecidas,
Tão egoístas e cheias de si.
Mãos que não a deixavam descansar.
A companhia da fechadura era um consolo.
A maçaneta ficou só, sem sentido.
Não era nada, um pedaço de ferro sujo.
Em sua grande amargura, suicidou-se.
E foi assim que a porta virou uma parede.
[pedro nagem de souza, 2ª]
Estava cansada de ser inútil,
Cansada de apenas chaves frias lhe tocarem,
Sem o calor de uma mão humana.
Sobrou apenas a maçaneta,
Que por sua vez não gostava das mãos, sujas e mal agradecidas,
Tão egoístas e cheias de si.
Mãos que não a deixavam descansar.
A companhia da fechadura era um consolo.
A maçaneta ficou só, sem sentido.
Não era nada, um pedaço de ferro sujo.
Em sua grande amargura, suicidou-se.
E foi assim que a porta virou uma parede.
[pedro nagem de souza, 2ª]
sensibilidade na pele do asfalto
Diria que as pombas de Higienópolis são tão bem tratadas como os cães que andam desfilando peças de marcas pelas calçadas, ou como os meninos que passam em bicicletas de manhã cedo. De quipás ou cigarro na mão. Mas como Helena me falara, as pombas têm, em sua enorme maioria, problemas nas patas (não que isso seja um problema a elas, porque até agora isso não as impediu de se reproduzirem). Talvez como uma anomalia ou pandemia, costumam ter um pé deficiente, sem todos dedos, ou sequer um deles – só uma massinha desfigurada em que sua perna toda se apoia. Em dezesseis anos de São Paulo nunca reparara, e agora como que num insight, vejo na primeira que atento essa coisa figurativa de cidade grande que caminha à auto-necrose – em plena São Vicente de Paula. Higienópolis, ilustríssimo e glorioso bairro em que os mais fortes pisam as calçadas mais limpas da cidade, sublimes pombas de pés deformados cruzam seus caminhos. Alguns andam descalços, outros só querem importado, e a maioria, tem pé deformado: o mesmo contato dos pés com a pele negra e grossa do asfalto.
[isabella arnoult, 2ª]
[isabella arnoult, 2ª]
Esperava com pressa de esperar. Porque mesmo os amantes permitidos precisam de um pouco de saudade. Talvez até de mais. E, como se sabe, os domingos das noites claras das luzes da cidade sempre foram os melhores pros amores assim. A menina atrasava porque sabia que o amor cheira a amêndoas e gengibre e, sabia também, que amêndoas dão gases.
A casa perto do aeroporto tremia da rota dos aviões. Os carros passavam num rápido enlouquecedor, misturando o cheiro de Gás Carbônico requintado com os perfumados do menino. Tudo aquilo cheirava a friozinho. Tudo aquilo teria um significado no mínimo interessante, mas ele, não lhe passava pela cabeça nem metade do que conspirava o universo para que aquela tarde fosse feliz. Sentia uma pontinha de tesão que insistia ser uma vontade de fazer xixi e gastou o almoço todo descendo e subindo as escadas, da porta pra privada, por duas horas e vinte.
Colecionava maneiras de se matar. Ainda não tinha aprendido a ser feliz apenas nos domingos.
[mônica coster ponte, 1ª]
A casa perto do aeroporto tremia da rota dos aviões. Os carros passavam num rápido enlouquecedor, misturando o cheiro de Gás Carbônico requintado com os perfumados do menino. Tudo aquilo cheirava a friozinho. Tudo aquilo teria um significado no mínimo interessante, mas ele, não lhe passava pela cabeça nem metade do que conspirava o universo para que aquela tarde fosse feliz. Sentia uma pontinha de tesão que insistia ser uma vontade de fazer xixi e gastou o almoço todo descendo e subindo as escadas, da porta pra privada, por duas horas e vinte.
Colecionava maneiras de se matar. Ainda não tinha aprendido a ser feliz apenas nos domingos.
[mônica coster ponte, 1ª]
pergunte ao joão felpudo
Querido João F.,
Tenho vivenciado uma situação um tanto quanto desagradável... Recentemente me dei conta que – justamente – perdi a conta de quantos beijos já distribuí por aí, e em todas as rodinhas que entro para conversar tem pelo menos um que eu conheço “bem”. Não que isso me envergonhe, até porque eu não saio “pegando todo mundo”, mas passou pela minha cabeça que deve ser bom ter essa noção, ao menos da média... Então, Felpudo, ajude-me. O que eu faço para saber com quantos já fiquei?
Assinado: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
[Aluna do 3º ano]
Querida Brilhantina,
Não pude deixar de notar tremenda semelhança entre seu caso, e um designado por processo eleitoral, ou vulgarmente conhecido como a Maior Festa da Democracia. Tome o caso Dilma, seu nome era pouco conhecido, assim como sua verdadeira identidade, Srta. Brilhantina. Sua campanha presidencial raramente precisava de aparições em debates, assim como você admite não sair "pegando todo mundo por aí". E apesar de ter iniciado a corrida até a rampa do planalto, observando seus candidatos lá de baixo das pesquisas, assistiu as intenções de voto a seu favor subirem de forma vertiginosa em três meses. Da mesma maneira que você, quando menos percebeu, já conhecia "muito bem" inúmeras pessoas que frequentavam suas "rodinhas".
Assim, é preciso que você repare também nas amigas à sua volta, antes abundantes, e imagino que agora sejam escassas, devida à sua “distribuição de pegadas”. Da mesma forma que se sucedeu com o candidato José Serra, ou vulgarmente conhecido como Zé Serra. Que ao início de sua campanha tinha larga vantagem nas intenções de voto em relação à então segunda colocada: Dilma Rousseff. Porém, ao escolher interagir com o presidente Lula através da competição e não mais cooperar com ele por meio de elogios, foi inevitável que a seleção popular ou natural, agora dirigida por Mano(s), escolhesse o caminho mais provável da vitória: seguir mudando a “história desse país”. Assim como você competiu, Srta. Brilhantina, com suas colegas durante a caça aos patos. Provavelmente, deixando-as ao lado do verdadeiro Pato: no banco da seleção brasileira (ou natural, ou popular?).
Em conclusão, saiba que você ocupa o topo da cadeia eleitoral.
Beijos,
João Felpudo.
Tenho vivenciado uma situação um tanto quanto desagradável... Recentemente me dei conta que – justamente – perdi a conta de quantos beijos já distribuí por aí, e em todas as rodinhas que entro para conversar tem pelo menos um que eu conheço “bem”. Não que isso me envergonhe, até porque eu não saio “pegando todo mundo”, mas passou pela minha cabeça que deve ser bom ter essa noção, ao menos da média... Então, Felpudo, ajude-me. O que eu faço para saber com quantos já fiquei?
Assinado: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
[Aluna do 3º ano]
Querida Brilhantina,
Não pude deixar de notar tremenda semelhança entre seu caso, e um designado por processo eleitoral, ou vulgarmente conhecido como a Maior Festa da Democracia. Tome o caso Dilma, seu nome era pouco conhecido, assim como sua verdadeira identidade, Srta. Brilhantina. Sua campanha presidencial raramente precisava de aparições em debates, assim como você admite não sair "pegando todo mundo por aí". E apesar de ter iniciado a corrida até a rampa do planalto, observando seus candidatos lá de baixo das pesquisas, assistiu as intenções de voto a seu favor subirem de forma vertiginosa em três meses. Da mesma maneira que você, quando menos percebeu, já conhecia "muito bem" inúmeras pessoas que frequentavam suas "rodinhas".
Assim, é preciso que você repare também nas amigas à sua volta, antes abundantes, e imagino que agora sejam escassas, devida à sua “distribuição de pegadas”. Da mesma forma que se sucedeu com o candidato José Serra, ou vulgarmente conhecido como Zé Serra. Que ao início de sua campanha tinha larga vantagem nas intenções de voto em relação à então segunda colocada: Dilma Rousseff. Porém, ao escolher interagir com o presidente Lula através da competição e não mais cooperar com ele por meio de elogios, foi inevitável que a seleção popular ou natural, agora dirigida por Mano(s), escolhesse o caminho mais provável da vitória: seguir mudando a “história desse país”. Assim como você competiu, Srta. Brilhantina, com suas colegas durante a caça aos patos. Provavelmente, deixando-as ao lado do verdadeiro Pato: no banco da seleção brasileira (ou natural, ou popular?).
Em conclusão, saiba que você ocupa o topo da cadeia eleitoral.
Beijos,
João Felpudo.
ANEDOTA: Malandro é o Serra que mudou de nome para esquecerem que ele perdeu de virada.
Edição e caderno:
3ª edição,
hq,
relações políticas pedagógicas
ser equipano
É muito difícil entender o que é esse "ser equipano" que todo mundo sempre fala. A expressão acaba ficando meio no ar, repleta de significado, que, pelo menos eu, nunca consegui apreender perfeitamente. Ontem, isso mudou.
A gente entra no Equipe sem saber direito o peso que carrega esse nome. Normalmente entendemos que é diferente do resto, mas acaba ficando implícito e é difícil alguém parar para questionar isso mais a fundo.
Quando você fica muito tempo no Equipe e muda para outra escola, esse diferencial que a gente nem percebe pesa; mas, depois de um tempo, a gente se acostuma e acaba esquecendo. Mas nada, nada, é melhor do que você perceber, entender e sentir o verdadeiro significado de Equipe, o que acontece, lógico, na hora em que você mais precisava.
Poder contar com as pessoas é o melhor sentimento; de confiança. De saber que, no exato momento que seus pés baterem naquela pedra, e você sentir que está perdendo o controle e que vai cair, vai ter alguém lá pra te segurar. Não só alguém, mas muitas pessoas; pessoas que podem não ser seu melhor amigo, que às vezes não te dão bom dia de manhã; pessoas que você já achava que tinha perdido, ou que você nunca imaginou que pudesse ter tido.
Esse é o significado de Equipe. Se eu pudesse colocar no dicionário, seria o mesmo que de família. Porque é isso que a gente é, apesar de tudo. Tudo mesmo. Apesar de não saber, ou de não querer, o Equipe tá na nossa vida, e é pra sempre. Pra sempre Equipe. Sempre Família Equipe.
[carolina audi, 3ª]
A gente entra no Equipe sem saber direito o peso que carrega esse nome. Normalmente entendemos que é diferente do resto, mas acaba ficando implícito e é difícil alguém parar para questionar isso mais a fundo.
Quando você fica muito tempo no Equipe e muda para outra escola, esse diferencial que a gente nem percebe pesa; mas, depois de um tempo, a gente se acostuma e acaba esquecendo. Mas nada, nada, é melhor do que você perceber, entender e sentir o verdadeiro significado de Equipe, o que acontece, lógico, na hora em que você mais precisava.
Poder contar com as pessoas é o melhor sentimento; de confiança. De saber que, no exato momento que seus pés baterem naquela pedra, e você sentir que está perdendo o controle e que vai cair, vai ter alguém lá pra te segurar. Não só alguém, mas muitas pessoas; pessoas que podem não ser seu melhor amigo, que às vezes não te dão bom dia de manhã; pessoas que você já achava que tinha perdido, ou que você nunca imaginou que pudesse ter tido.
Esse é o significado de Equipe. Se eu pudesse colocar no dicionário, seria o mesmo que de família. Porque é isso que a gente é, apesar de tudo. Tudo mesmo. Apesar de não saber, ou de não querer, o Equipe tá na nossa vida, e é pra sempre. Pra sempre Equipe. Sempre Família Equipe.
[carolina audi, 3ª]
dois perdidos numa noite suja
Entre as atrações de agosto do Centro Cultural São Paulo, a montagem de Dois perdidos numa noite suja, do conhecido texto de Plínio Marcos, vale a parada na estação Vergueiro. Com cenário e caracterização simples, a narrativa dispensa grandes aparatos para se manter instigante até o final, contando com bons atores para encenar a história de dois homens, alguns pares de sapato e um cotidiano pouco acalentador. Não apenas pelo texto, que desde o começo – como um homem que estava do meu lado disse quando saiu da sala – é um soco no estômago, mas a sincronia dos atores no palco amarra perfeitamente os conflitos expostos pelo dramaturgo. Antes em cartaz no SESC Vila Mariana, a peça agora está na Sala Paulo Emílio Salles do CCSP, de 19 de agosto até dia 26 de setembro, podendo ser vista de quinta-feira a sábado às 21h e também aos domingos, às 20h. R$ 20. Endereço: Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso. (Estação Vergueiro da Linha 1 do Metrô). Tel.: (11) 3397-4002.
[deborah salles, 3ª]
[deborah salles, 3ª]
linha 4: salvação ou condenação?
A nova linha amarela é, talvez, o maior objeto de propaganda do governador Serra dentro de São Paulo, que deixa agora o estado para disputar a vaga de presidente da república. E não é à toa: o metrô sempre foi visto como a salvação do paulistano para a mobilidade urbana, uma vez que grandes avenidas, hoje em dia, são sinônimo de grandes congestionamentos. A fascinação por carros condenou os habitantes de São Paulo a perder horas no trânsito apenas para ir e voltar ao trabalho. Portanto, dentro deste contexto, a solução foi cavar e passar por baixo: e o metrô logo se tornou necessário para absorver o excedente e impedir que o sistema caótico de trânsito viesse a colapsar de vez. É quase mágico, quando se pensa no caos que são as ruas de São Paulo, entrar em uma estação na Vila Madalena e, menos de 1h depois, sair no Sacomã.
Não deve haver dúvidas, portanto, de como a linha amarela irá significar um benefício para a mobilidade urbana. Além de ligar o centro de São Paulo com uma área que vem recebendo cada vez mais habitantes, que fogem dos exuberantes preços do centro expandido, a linha amarela fará baldeação com as linhas 1, 2 e 3 do metrô, fora as da CPTM e expressos, ligando sistemas já existentes e facilitando o uso destes meios de transporte mais rápidos que o atual sistema viário. Será uma opção muito mais favorável do que as viagens de ônibus que, atualmente, demoram horas para serem feitas. Isto tudo sem falar da importância das estações Paulista e Faria Lima, dois grandes centros econômicos, entre outras igualmente conhecidas e importantes.
Entretanto, o que esta por trás da linha 4 do metrô? E, afinal, será que ela é mesmo a solução para o caos do sistema de transporte rodoviário?
Há muito o que dizer sobre a nova linha, a começar pelos contratos PPP (Parceria Público-Privado). Ou, como diz o jornal “Brasil de Fato¹” o início da privatização do metrô de São Paulo. A administração deixará de ser responsabilidade pública do estado e passará a ser de empresas privadas que têm, em contratos, garantias de lucros por parte do governo. Estas empresas, que terão taxas de lucros exuberantes baseadas no dinheiro pago nas catracas, são as mesmas empresas que já dominam as concessões de rodovias no estado, lucrando números inacreditáveis diariamente. Além disso, os contratos tem muita pouca transparência e pontos controversos quanto à administração e manutenção da nova linha 4 amarela.
Para entender melhor, basta olhar para o sistema de ônibus da capital. O sistema é todo terceirizado: o estado concede o direito, em contratos, a consórcios de ônibus para operar as linhas. Estes consórcios, por sua vez, têm taxas exuberantes de lucro garantidas no contrato. O resultado é o preço absurdo pago hoje em dia pela passagem: R$2,70, fora todo o dinheiro que o governo é obrigado a desembolsar todos os meses para cobrir o preço garantido no contrato. A qualidade do transporte, por sua vez, varia muito, mas é avaliada de forma negativa pela maioria dos usuários que é obrigado a esperar um tempo incerto para entrar em um ônibus lotado que anda, em média, a 12km/h nos horários de pico (dado de 2008).
Se o metrô andará nos mesmos trilhos que o setor de ônibus tomou, não é possível dizer. Mas vale pensar, dentro desta logística da terceirização, até que ponto a busca privada pelo lucro coincide com a busca pelo serviço público. Afinal de contas, se a ideia do público é oferecer um serviço bom e abrangente mantido pelo dinheiro que nós pagamos em impostos, não é estranha a ideia de que algum empresário rico irá lucrar com os impostos? Será que esta parte do dinheiro que acaba no bolso de um empresário não poderia ser usada para melhorar ainda mais a qualidade do serviço, caso não fosse necessário terceirizá-lo? Será que ainda podemos considerar transporte como sendo “Business”?
Mas a discussão dos serviços privatizados é longa e polêmica, e não deve ser o foco deste artigo.
Afinal de contas, deixando de lado o papo administrativo e indo para o papo transporte, será mesmo que a linha amarela, a grande conclusão do programa “expansão São Paulo”, é mesmo a solução de todos os problemas? O “messias” do transporte público?
Que vai ajudar, não há duvidas – uma nova linha de metrô, trem, ou expresso urbano sempre é muito bem-vinda: meios de transporte mais rápidos com capacidade de transportar muito mais passageiros em um tempo muito menor do que carros ou ônibus normais. Mas a linha 4 não é a solução. Como o próprio nome já diz, é apenas mais uma linha, que provavelmente já começará a funcionar saturada pela grande demanda que já existe. Todo o plano do expansão São Paulo não passa disso: criar algumas linhas para suportar a demanda que cresceu e para fazer propaganda política. A ideia é absorver a nova demanda, que na minha visão, não passa de fazer um remendo num pano todo rasgado.
A solução é mais profunda e muito mais trabalhosa: ela consiste em mudar a visão e o ideal de transporte do paulistano. O transporte particular é hoje visto como a solução rápida e confortável da complicada mobilidade urbana. Quer dizer, rápido já não pode ser uma afirmação nos dias de hoje, mas a verdade é que este pensamento nos remete ao modo como São Paulo foi industrializado há 60 anos, nos meados de 1950. Ali, perante um pensamento extremamente desenvolvimentista, dentro de uma cidade que se orgulhava do seu “progresso” e crescimento, crescia, financiada pelo governo, a gigante indústria automobilística. Indústria que, desde o começo, foi acusada de corrupção e se envolveu em polêmicas, mas sem dúvida cresceu economicamente e tomou lugar importantíssimo e fundamental para impulsionar o desenvolvimento que o paulistano tanto se orgulha. E, como já dito no texto, o único objetivo do privado é o lucro, ou seja, o interesse destas indústrias era (e ainda é) vender carros. E a indústria conseguiu, apoiada pelo poder público, criar um imaginário dentro da cultura paulistana que dura até hoje: o imaginário do carro como status e como a solução. Não é difícil de perceber isto dentro do cotidiano, basta ver a quantidade de carros ou a importância dada por eles pelas pessoas. E todo este interesse, que como sempre passa longe do interesse popular, fez propositalmente que o transporte público fosse posto em segundo plano. Não era interessante tê-lo, era mais interessante vender carros e aquecer a economia.
E a cada compra de carros, parcelada em mais de 100 vezes, nós, paulistanos, assinávamos, e continuamos assinando, a manutenção do caos da mobilidade urbana. Quando chegará a hora que nós entenderemos que a solução não são tuneis e viadutos, e que o problema não é o transporte público? O problema é o carro e o transporte de massa a solução. Chega de inverter as coisas: temos que colocar tudo em seu devido lugar. O transporte público tem que ser uma opção mais rápida, confiável, barata e minimamente confortável. Só então, talvez, medidas como o pedágio urbano pudessem ser pensadas como modos de impulsionar o uso do transporte público em detrimento do privado, e finalmente buscarmos uma solução real, e não provisória, para a mobilidade urbana numa das maiores megalópoles da América Latina.
Bom, acho que vale parar por aqui. A ideia do texto era buscar uma visão crítica sobre a nova linha, uma visão que vai além da propaganda do Serra ou de discursos prontos que circulam de boca em boca. Afinal de contas, muitos de nós a usaremos, e é sempre bom saber o que esta no fundo do açucareiro, tal como o Professor Rodrigo já diz (que talvez seja, neste caso, o que está no fim do túnel).
¹ http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/transporte-em-sao-paulo/view
[vitor barbosa, 2ª]
Não deve haver dúvidas, portanto, de como a linha amarela irá significar um benefício para a mobilidade urbana. Além de ligar o centro de São Paulo com uma área que vem recebendo cada vez mais habitantes, que fogem dos exuberantes preços do centro expandido, a linha amarela fará baldeação com as linhas 1, 2 e 3 do metrô, fora as da CPTM e expressos, ligando sistemas já existentes e facilitando o uso destes meios de transporte mais rápidos que o atual sistema viário. Será uma opção muito mais favorável do que as viagens de ônibus que, atualmente, demoram horas para serem feitas. Isto tudo sem falar da importância das estações Paulista e Faria Lima, dois grandes centros econômicos, entre outras igualmente conhecidas e importantes.
Entretanto, o que esta por trás da linha 4 do metrô? E, afinal, será que ela é mesmo a solução para o caos do sistema de transporte rodoviário?
Há muito o que dizer sobre a nova linha, a começar pelos contratos PPP (Parceria Público-Privado). Ou, como diz o jornal “Brasil de Fato¹” o início da privatização do metrô de São Paulo. A administração deixará de ser responsabilidade pública do estado e passará a ser de empresas privadas que têm, em contratos, garantias de lucros por parte do governo. Estas empresas, que terão taxas de lucros exuberantes baseadas no dinheiro pago nas catracas, são as mesmas empresas que já dominam as concessões de rodovias no estado, lucrando números inacreditáveis diariamente. Além disso, os contratos tem muita pouca transparência e pontos controversos quanto à administração e manutenção da nova linha 4 amarela.
Para entender melhor, basta olhar para o sistema de ônibus da capital. O sistema é todo terceirizado: o estado concede o direito, em contratos, a consórcios de ônibus para operar as linhas. Estes consórcios, por sua vez, têm taxas exuberantes de lucro garantidas no contrato. O resultado é o preço absurdo pago hoje em dia pela passagem: R$2,70, fora todo o dinheiro que o governo é obrigado a desembolsar todos os meses para cobrir o preço garantido no contrato. A qualidade do transporte, por sua vez, varia muito, mas é avaliada de forma negativa pela maioria dos usuários que é obrigado a esperar um tempo incerto para entrar em um ônibus lotado que anda, em média, a 12km/h nos horários de pico (dado de 2008).
Se o metrô andará nos mesmos trilhos que o setor de ônibus tomou, não é possível dizer. Mas vale pensar, dentro desta logística da terceirização, até que ponto a busca privada pelo lucro coincide com a busca pelo serviço público. Afinal de contas, se a ideia do público é oferecer um serviço bom e abrangente mantido pelo dinheiro que nós pagamos em impostos, não é estranha a ideia de que algum empresário rico irá lucrar com os impostos? Será que esta parte do dinheiro que acaba no bolso de um empresário não poderia ser usada para melhorar ainda mais a qualidade do serviço, caso não fosse necessário terceirizá-lo? Será que ainda podemos considerar transporte como sendo “Business”?
Mas a discussão dos serviços privatizados é longa e polêmica, e não deve ser o foco deste artigo.
Afinal de contas, deixando de lado o papo administrativo e indo para o papo transporte, será mesmo que a linha amarela, a grande conclusão do programa “expansão São Paulo”, é mesmo a solução de todos os problemas? O “messias” do transporte público?
Que vai ajudar, não há duvidas – uma nova linha de metrô, trem, ou expresso urbano sempre é muito bem-vinda: meios de transporte mais rápidos com capacidade de transportar muito mais passageiros em um tempo muito menor do que carros ou ônibus normais. Mas a linha 4 não é a solução. Como o próprio nome já diz, é apenas mais uma linha, que provavelmente já começará a funcionar saturada pela grande demanda que já existe. Todo o plano do expansão São Paulo não passa disso: criar algumas linhas para suportar a demanda que cresceu e para fazer propaganda política. A ideia é absorver a nova demanda, que na minha visão, não passa de fazer um remendo num pano todo rasgado.
A solução é mais profunda e muito mais trabalhosa: ela consiste em mudar a visão e o ideal de transporte do paulistano. O transporte particular é hoje visto como a solução rápida e confortável da complicada mobilidade urbana. Quer dizer, rápido já não pode ser uma afirmação nos dias de hoje, mas a verdade é que este pensamento nos remete ao modo como São Paulo foi industrializado há 60 anos, nos meados de 1950. Ali, perante um pensamento extremamente desenvolvimentista, dentro de uma cidade que se orgulhava do seu “progresso” e crescimento, crescia, financiada pelo governo, a gigante indústria automobilística. Indústria que, desde o começo, foi acusada de corrupção e se envolveu em polêmicas, mas sem dúvida cresceu economicamente e tomou lugar importantíssimo e fundamental para impulsionar o desenvolvimento que o paulistano tanto se orgulha. E, como já dito no texto, o único objetivo do privado é o lucro, ou seja, o interesse destas indústrias era (e ainda é) vender carros. E a indústria conseguiu, apoiada pelo poder público, criar um imaginário dentro da cultura paulistana que dura até hoje: o imaginário do carro como status e como a solução. Não é difícil de perceber isto dentro do cotidiano, basta ver a quantidade de carros ou a importância dada por eles pelas pessoas. E todo este interesse, que como sempre passa longe do interesse popular, fez propositalmente que o transporte público fosse posto em segundo plano. Não era interessante tê-lo, era mais interessante vender carros e aquecer a economia.
E a cada compra de carros, parcelada em mais de 100 vezes, nós, paulistanos, assinávamos, e continuamos assinando, a manutenção do caos da mobilidade urbana. Quando chegará a hora que nós entenderemos que a solução não são tuneis e viadutos, e que o problema não é o transporte público? O problema é o carro e o transporte de massa a solução. Chega de inverter as coisas: temos que colocar tudo em seu devido lugar. O transporte público tem que ser uma opção mais rápida, confiável, barata e minimamente confortável. Só então, talvez, medidas como o pedágio urbano pudessem ser pensadas como modos de impulsionar o uso do transporte público em detrimento do privado, e finalmente buscarmos uma solução real, e não provisória, para a mobilidade urbana numa das maiores megalópoles da América Latina.
Bom, acho que vale parar por aqui. A ideia do texto era buscar uma visão crítica sobre a nova linha, uma visão que vai além da propaganda do Serra ou de discursos prontos que circulam de boca em boca. Afinal de contas, muitos de nós a usaremos, e é sempre bom saber o que esta no fundo do açucareiro, tal como o Professor Rodrigo já diz (que talvez seja, neste caso, o que está no fim do túnel).
¹ http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/transporte-em-sao-paulo/view
[vitor barbosa, 2ª]
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