sábado, 28 de agosto de 2010

sensibilidade na pele do asfalto

Diria que as pombas de Higienópolis são tão bem tratadas como os cães que andam desfilando peças de marcas pelas calçadas, ou como os meninos que passam em bicicletas de manhã cedo. De quipás ou cigarro na mão. Mas como Helena me falara, as pombas têm, em sua enorme maioria, problemas nas patas (não que isso seja um problema a elas, porque até agora isso não as impediu de se reproduzirem). Talvez como uma anomalia ou pandemia, costumam ter um pé deficiente, sem todos dedos, ou sequer um deles – só uma massinha desfigurada em que sua perna toda se apoia. Em dezesseis anos de São Paulo nunca reparara, e agora como que num insight, vejo na primeira que atento essa coisa figurativa de cidade grande que caminha à auto-necrose – em plena São Vicente de Paula. Higienópolis, ilustríssimo e glorioso bairro em que os mais fortes pisam as calçadas mais limpas da cidade, sublimes pombas de pés deformados cruzam seus caminhos. Alguns andam descalços, outros só querem importado, e a maioria, tem pé deformado: o mesmo contato dos pés com a pele negra e grossa do asfalto.

[isabella arnoult, 2ª]

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