sábado, 28 de agosto de 2010

frio

Fazia frio naquela manhã de outono. De fato, não era mais tão cedo, mas o frio matutino persistia corroendo meus ossos e machucando meu ser. Mesmo assim, corroído de frio, saí às ruas em busca do que fazer, nenhum objetivo traçado, exceto o pensamento nublado de comprar meu almoço e tentar encontrar algum rosto conhecido.
Andando em uma rua vazia, percebi que as manhãs ensolaradas eram mais charmosas no outono, mesmo com o maldito frio que queimava minhas mãos nuas. Foi então que vi um grupo de gente amontoada, aparentemente observando alguma coisa. Curioso, me aproximei para ver o que era, e acabei me integrando ao bolo de pessoas sedentas de curiosidade. No centro da roda, havia um velho mendigo deitado no chão, encolhido e enrugado. Ele segurava um livro velho e antigo, e um trapo em frangalhos que um dia fora uma coberta. Sem dúvida, entre as rugas e fuligem, se via um rosto pálido e frio, e seus olhos fechados lhe davam a impressão de que seu sono há anos não era tão decente. Uma mulher do grupo disse, corajosa:
– Ele morreu de frio, eu acho.
De fato, o mendigo que parecia dormir tranquilamente entre seu sofrimento estava morto. Morrera de frio, afinal sua coberta em farrapos e sua pouca roupa não pareciam ser suficientes para combater o frio terrível que fazia nas noites escuras daquele outono, que nunca fora tão gélido. Seu corpo encolhido mostrava o sofrimento do velho, e sua magreza só deixava claro o quanto o velho fora castigado pelo mundo. Talvez a pena que todos nós sentíamos fosse muito maior que nosso pesar, ninguém sofreria com a morte do indigente, nem ele mesmo. Restava saber o que se faria com o corpo velho mendigo, ou melhor dizendo, ficamos nos perguntando silenciosamente quem chamávamos para recolher o corpo. Um jovem disse, displicentemente:
– Melhor chamar a polícia ou o IML, antes que comece a feder.
Mesmo grosseiro, não havia quem discordasse do jovem, muito menos eu. Alguém em meio ao grupo ligou para a polícia, e se encarregou caridosamente de aguardar junto ao defunto até eles chegarem. Começamos a nos dispersar, seguindo nossos caminhos. A manhã já não era mais tão charmosa. Estou certo que de a única coisa que cada um de nós queria era continuar vivendo sua vida, e a memória que sobraria do velho mendigo morto pelo frio em nós apenas remeteria ao fato de termos um frio assassino no outono paulistano.
Antes de seguir vagando, voltei para dar uma ultima olhada no mendigo, imaginando por quanto tempo ainda me lembraria de seu rosto. Foi então que percebi realmente o livro em seus braços. Era uma edição antiga de um livro de contos de fadas, que se mantinha junto graças a uma fita adesiva também muito antiga. Ora, um livro infantil muito antigo, talvez até mais antigo que seu dono. Um reduto de fantasia e sonho, nos braços de um indigente que vivia em um mundo sofrido e desesperançoso. Sem dúvida, o velho mendigo ainda se permitia sonhar. Eu gostaria de me permitir o mesmo.

[daniel slater, 2ª]

Nenhum comentário:

Postar um comentário