quarta-feira, 19 de maio de 2010

vidas de areia

O sertão vai entrando pelo nariz e pelos olhos de Volta Seca. Entra seco. O trem já cavou muito pra dentro da Bahia. A brisa do mar de Salvador para aquela direção parece que não quer ir. Para aquela direção parece que ninguém quer ir. Ninguém vai ao sertão. As pessoas já nascem nele. Só Volta Seca que quer ir encontrar lá a vingança da miséria junto a Lampião. O trem vai devagar e o som dos trilhos naquele silêncio incomoda. Em Salvador, Volta Seca tinha a impressão de que o mundo fazia mais barulho. Vai vendo o sertão passar. A caatinga tenta gritar, mas não consegue. Volta Seca foi para gritar pela caatinga. Era hora de gritar. Ele sai do trem num pulo. As planícies avermelhadas incomodam seus olhos. Vaqueiros, crianças sem nome, mães e mães e cachorros e meninos e a água, não há água. Se mete numa cidade, que não é cidade, é sertão: cidade é Salvador, sertão é sertão. Volta Seca sabe que lá também os homens ricos eram ruins. Que lá iria realizar sua missão de vida, matar soldados de polícia e libertar o agreste sendo então o mais novo Pedro Bala, o mais novo Lampião. Não tardou a se meter em encrenca. Foi roubar numa feira: comida mesmo pra viver. Mas daí o pegaram, e a mão do soldado sertanejo doía mais do que a do soldado de Salvador. Na cadeia, bateram mais nele quando falou que era afilhado de Lampião. Então ele repetiu que era sim e bateram mais. O jogaram numa cela. Seca. Lotada de homem que parecia bicho, seminus, deviam nem ter feito nada, pensou. Pareciam já ter engolido aquele injustiça. Achegou-se em um que soltava grunhidos de animais. Todo ele era seco, sua pele dura, muito claro, mas a poeira o deixava marrom. “Como se chama?”, perguntou Volta Seca.
“Fabiano”, disse o homem com dificuldade. Fabiano. Esse cabra devia ser vaqueiro, pai de alguma daquelas famílias que viu se arrastando pela estrada. “Por que te prenderam?”, Volta Seca quis saber. “Foi o soldado amarelo que me prendeu”. Volta Seca sabia de quem o homem estava falando. Percebeu que o tal Fabiano parecia inconformado. “Ele me prendeu também. Quando sair daqui vou matá-lo. Matar todos eles.” O homem da pele dura estranhou a fala raivosa do moleque. Se via conformado, menor e incapaz de dizer aquelas coisas. No fundo, tinha o mesmo ódio. “Vou matar todos eles”, continuou empolgado, “os soldados de polícia, os governantes!”. Fabiano não entendeu. Para ele o governo não era quem prendia. O governo era sim longe, e ele era pequeno, era bicho, bruto. Tentou arriscar algumas palavras. “Se eu conseguisse falar bonito, ia dizer tudo pro soldado amarelo”. O homem falava meio encabulado, com dificuldade. Como se tivesse pedra na boca. Volta Seca estava acostumado a falar com os Capitães da Areia, falar e gritar e reclamar e agir muito sempre. Mas entendia os silêncios pausados de Fabiano. Ele não tinha água. Pelo menos em Salvador havia o mar, as pessoas. Volta Seca pensou que entendia tanto os sertanejos porque era um deles também. Viera para libertá-los e extravasá-los de todo aquele ódio e pobreza.
Não demorou a ser liberado. Como na Bahia, os soldados só queriam ralhar com ele, se divertir batendo nos pobres. Saiu ainda mais revoltado do que quando entrou. Pensava forte em Fabiano, imaginava sua família ali na beira daquele nada, carregando criancinhas fracas que lhe faziam lembrar dos companheiros do trapiche, meninas mulheres como Dora que viviam como animais para aguentar aquela seca. Eram vidas de areia, mas não da areia da praia que forrava o trapiche, areia do sertão que machuca os olhos, machuca o corpo e é fraca, logo desfaz.
Ia andando mais devagar do que o trem. Queria e pensava só em encontrar Lampião. Com ele iria matar todos aqueles soldados que em algum lugar, fosse em Salvador ou no sertão, tivessem prejudicado algum pobre e piorado sua pobreza. Pois não mais o fariam com ele e Lampião juntos – e era nisso que Volta Seca acreditava, e por isso ia, andava.

[beatriz demasi, 1ª]

Nenhum comentário:

Postar um comentário