quarta-feira, 19 de maio de 2010

uma marcha qualquer...

Antes de qualquer palavra, esta é uma resposta ao texto “Reforma na política de drogas é necessário?” de Luca Magri, texto este presente nesta mesma edição do jornal. Quero esclarecer que o jornal é o espaço para a discussão e que esta por sua vez só pode existir se houverem iniciativas como estas. Mas vamos às vias de fato:
1º de Maio de 2010, Rio de Janeiro: Passeata a favor de direitos trabalhistas? Pela Reforma Agrária? Por uma educação pública de qualidade? Não! No dia do trabalhador o que de fato aconteceu foi a Marcha da Maconha.
Uma organização mundial, com entidades de todos os tipos e indivíduos de todas as tribos, digo, quase todas. Promove em mais de trezentas cidades, uma marcha pela legalização da maconha. A de São Paulo ocorrerá no próximo dia 23, contando com a presença em massa da juventude paulistana.
Mas o que isso de fato representa? Antes de qualquer juízo sobre a marcha tenho de deixar claro que sou a favor da legalização do uso da maconha, pois a vejo não como um problema moral, mas sim de saúde pública e nesse campo acredito que as drogas têm suas funções sociais que são válidas, mas que devem ser pensadas com cabeça fria e de preferência, sóbria.
O que de fato me incomoda é essa posição perante a droga: que está muito bem ilustrada no texto “Reforma na política de drogas é necessário?” . Primeiramente acreditar que o que de fato precisamos no Brasil é uma reforma na política de drogas é não entender o que se pensa sobre drogas e principalmente a quem se destina essa discussão. Necessitamos de uma mudança na estrutura da concepção que o Estado brasileiro tem sobre drogas psicoativas e não apenas uma reforma, pois esta, se feita legitima a estrutura arcaica da nossa sociedade quanto ao assunto (diferentemente de uma mudança estrutural)
Este movimento e seus defensores não entendem que estas ambições são meramente representações de filhos da elite com suas respectivas angustias de classe dominante: “fumo ou num fumo?”.
E mais, não compreendem que para tornar “ assim, o mundo mais justo e democrático” como disse Luca, é necessário, antes de legalizar a droga, democratizar a discussão sobre maconha. Pois enquanto nós, filhos da burguesia, nos preocupamos com a erva (liberada ou não), na periferia os jovens tem de se preocupar se serão assassinados por grupos de policiais, como estamos acompanhando diariamente.
Cria-se a ilusão que a questão da maconha ultrapassa as fronteiras sociais, quando na verdade, apesar do uso da maconha ser grande entre os jovens de diversas camadas socioeconômicas, sua utilização não representa, diretamente, que os jovens da periferia e de baixa renda estejam integrados nessa discussão. E se pretende ser um movimento justo e democrático, necessita dialogar em todas as esferas sociais, caso contrário continuará sendo um “chilique de pequeno burguês”.
A droga necessita ser debatida sim, como o movimento propõe, mas não sob o ótica escolhida. A droga, a meu ver, deve ser debatida pela sua presença na sociedade (e acreditem, quando digo sociedade vai além da Vila Madalena). Como algo recorrente em todos os setores sociais, deve ser pensado por todos os mesmos.
Não é menosprezar a questão da maconha, mas se chegamos ao ponto de nossa juventude se preocupar com a legalização da maconha em pleno 1º de Maio, com tantas causas mais justas e dignas a serem abraçadas, é por que de fato, nos encontramos totalmente ilhados da nossa estrutura e da compreensão do poder de atuação política que temos.
Questões como legalização do aborto, da educação na rede publica: por que nós não vamos pras ruas por estas causas? Estas sim são causas democráticas e justas, mas não, cada um defende seu peixe com a arma que tem, não é mesmo?
Por fim, um movimento deste caráter é, na minha humilde opinião de filho do mesmo nicho social, um movimento alienado à sua própria causa, pois não entende em que problemas estruturais da sociedade a questão das drogas estão enraizadas.
Embora a legalização da maconha seja uma reivindicação justa, ela se configurou nesta Marcha da Maconha como um movimento de elite, tanto quanto a ”Marcha da Família com Deus pela Liberdade” que foi um dos estopins conservadores do golpe de 64.
É uma pena, e uma realidade.

[vitor quarenta, 3ª]

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